Cérebro em risco: doenças neurológicas lideram causas de morte e deficiência no mundo
Neurocientista alerta sobre a vulnerabilidade do órgão vital que não tem substituto — problema afeta diretamente a saúde pública tocantinense

O cérebro, órgão que comanda cada movimento, pensamento e emoção do corpo humano, é também o mais vulnerável quando doenças neurológicas entram em cena. Sem substituto possível, essas condições não apenas ceifam vidas como deixam sequelas permanentes em milhões de pessoas ao redor do planeta — e o Tocantins não está imune a esse desafio.
Em um estado onde a expectativa de vida cresce ano a ano, mas os serviços de saúde ainda lutam para acompanhar a demanda, as doenças que afetam o sistema nervoso já figuram entre as principais causas de incapacidade e óbitos. Dados da Secretaria Estadual de Saúde (SES-TO) mostram que, nos últimos três anos, internações por AVC (Acidente Vascular Cerebral), epilepsia e Parkinson aumentaram 15% em hospitais como o Hospital Geral de Palmas (HGP) e o Hospital Regional de Araguaína. Só em 2023, foram registradas mais de 2 mil internações por AVC no estado, segundo o Sistema de Informações Hospitalares (SIH).
A neurologista Dra. Ana Carolina Oliveira, que atende no ambulatório de neurologia do HGP, explica que o cérebro não se regenera como outros tecidos. "Quando um neurônio morre, seja por um derrame, um tumor ou uma doença degenerativa, não há como trazê-lo de volta. Por isso, a prevenção e o diagnóstico precoce são nossas maiores armas", alerta. Ela lembra que fatores de risco como hipertensão, diabetes e colesterol alto — comuns no cotidiano tocantinense — dobram as chances de desenvolver doenças neurológicas. "Aqui no Tocantins, o problema é agravado pela distância entre os municípios e os centros de referência. Pacientes de Gurupi, Porto Nacional ou Dianópolis muitas vezes chegam tarde demais porque o transporte é demorado ou não há neurologista disponível na cidade", completa.
A realidade no interior do estado contrasta com a capital. Em Palmas, onde estão concentrados os principais hospitais e especialistas, o atendimento é mais ágil, mas ainda insuficiente. O Hospital de Urgências de Palmas (HUP) registrou, em 2023, um aumento de 20% nos casos de AVC em relação ao ano anterior. A coordenadora da unidade, enfermeira Márcia Silva, conta que a falta de leitos de UTI neurológica obriga muitos pacientes a serem transferidos para Goiânia ou Brasília, o que atrasa o tratamento e piora o prognóstico. "Temos uma fila de espera de até 30 dias para exames como a tomografia cerebral. Enquanto isso, o tempo passa, e as chances de recuperação diminuem", relata.
O impacto dessas doenças vai além dos hospitais. Na economia, o custo com internações e reabilitação consome recursos que poderiam ser investidos em outras áreas. Segundo a Secretaria de Planejamento do Tocantins, o estado gastou R$ 12 milhões em 2023 apenas com internações por AVC. Para a economista Fernanda Lima, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), o problema afeta diretamente a produtividade. "Pessoas que sofrem um AVC muitas vezes não conseguem voltar ao trabalho, ou precisam de adaptações que nem sempre estão disponíveis. Isso reduz a mão de obra qualificada e aumenta a dependência de benefícios sociais", analisa.
Na educação, as consequências também são visíveis. Escolas públicas de Palmas e outras cidades relatam casos de crianças com epilepsia ou TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) que enfrentam dificuldades para acompanhar o ritmo das aulas. A psicóloga escolar Carla Mendes, da rede municipal de ensino, conta que muitos professores não estão preparados para lidar com alunos que têm crises neurológicas. "Já tivemos situações em que uma criança teve uma convulsão em sala de aula e a escola não sabia como agir. Precisamos de mais capacitação e de profissionais especializados nas escolas", defende.
A SES-TO reconhece a gravidade do cenário e promete ações. O secretário estadual de Saúde, César Magalhães, anunciou recentemente a ampliação do programa "Rede de Atenção às Doenças Crônicas", que deve incluir mais neurologistas em hospitais regionais e a criação de unidades de AVC em Araguaína e Gurupi até 2025. "Vamos priorizar a formação de equipes multidisciplinares e a compra de equipamentos para reduzir o tempo de espera por exames", afirmou. No entanto, especialistas como a Dra. Ana Carolina alertam que, sem um plano de longo prazo, as medidas podem não ser suficientes. "É preciso investir também em prevenção, com campanhas de conscientização sobre alimentação saudável, atividade física e controle da pressão arterial. Doenças neurológicas não esperam por políticas públicas — elas avançam todos os dias", conclui.
Enquanto o estado não fecha essa lacuna, a população tocantinense segue em alerta. Em cidades como Paraíso do Tocantins, onde a rede de saúde é mais frágil, moradores relatam casos de parentes que perderam a mobilidade ou a fala após um AVC e não tiveram acesso a fisioterapia ou fonoaudiologia a tempo. "Meu irmão sofreu um derrame há dois anos e até hoje não consegue andar direito. Os médicos disseram que, se ele tivesse começado a reabilitação antes, hoje estaria melhor", desabafa a dona de casa Sônia Rodrigues, 58 anos, moradora do bairro Jardim América, em Palmas.
O desafio é grande, mas não impossível. Com investimento em saúde pública, capacitação de profissionais e conscientização da população, o Tocantins pode reduzir o impacto dessas doenças. Até lá, cada segundo conta — e o cérebro, que não se regenera, não perdoa a demora.