Colômbia barra pulverização aérea de coca por risco à saúde
Governo colombiano suspende uso de herbicida em plantações de coca a pedido de estudo que aponta risco cancerígeno 14/05/2015 Colômbia

A Colômbia deu um passo atrás na guerra contra as drogas na noite de quinta-feira, 14 de maio de 2015, ao determinar a suspensão imediata da pulverização aérea de herbicidas sobre as plantações de coca. A decisão, anunciada pelo governo colombiano, afronta diretamente uma das principais estratégias de combate ao tráfico apoiadas pelos Estados Unidos há mais de uma década.
A medida foi justificada com base em um estudo que classificou o glifosato — o composto químico usado nas pulverizações — como potencialmente cancerígeno. O governo não quis arriscar: suspendeu os voos de aviões e drones que, durante anos, sobrevoaram florestas e campos do país para eliminar culturas ilegais de coca, a matéria-prima da cocaína. A decisão afeta diretamente regiões rurais onde a economia informal muitas vezes depende da produção da planta, mas também coloca em xeque a eficácia de um método que, embora controverso, era visto como indispensável pela política antidrogas norte-americana.
A Colômbia não está sozinha nessa encruzilhada. O debate sobre o uso de glifosato não é novo. Em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia levantado suspeitas sobre os riscos do herbicida, classificando-o como “provavelmente cancerígeno” em relatórios preliminares. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) e a União Europeia, no entanto, ainda não haviam adotado medidas tão radicais quanto a suspensão total. A decisão colombiana, portanto, pode ser lida como um sinal de que, em meio a pressões internacionais, o país decidiu priorizar a saúde pública em detrimento de uma estratégia de segurança que, embora agressiva, nunca convenceu ambientalistas e defensores de direitos humanos.
Para os agricultores que dependem da cultura da coca, a notícia chega em um momento delicado. Muitas famílias no sul do país, especialmente em regiões como Nariño e Putumayo, cultivam a planta há gerações, seja por falta de alternativas econômicas, seja pela pressão de grupos armados que controlam o tráfico. A suspensão dos voos de pulverização pode soar como uma vitória para quem vê no glifosato uma ameaça à saúde e ao meio ambiente, mas também abre uma lacuna perigosa: sem o controle aéreo, a produção de coca pode aumentar, alimentando o ciclo de violência que já deixou marcas profundas na Colômbia.
O governo colombiano não anunciou um plano B imediato. A suspensão é temporária, segundo comunicado oficial, até que novas avaliações sejam feitas sobre os riscos do herbicida. Enquanto isso, os Estados Unidos, que financiaram grande parte das operações de pulverização ao longo dos anos, ainda não se pronunciaram oficialmente sobre a decisão. Diplomatas em Bogotá já devem estar reunidos com autoridades locais para discutir os próximos passos, mas o clima é de incerteza. A Colômbia, que já foi o maior produtor mundial de coca, agora precisa encontrar um equilíbrio entre cumprir acordos internacionais de combate às drogas e proteger sua população — e seus agricultores — de riscos que vão muito além da criminalidade.
A decisão também serve de alerta para outros países da América Latina que ainda apostam em estratégias semelhantes. Se a Colômbia, tradicional aliada dos EUA na guerra às drogas, recua por questões de saúde, o que esperar de nações como o Peru ou a Bolívia, onde o cultivo de coca é ainda mais disseminado? A suspensão colombiana pode ser o primeiro passo para uma reavaliação global do uso de glifosato, mas também pode abrir espaço para que o tráfico reorganize suas operações em territórios onde o controle estatal é frágil.
O que fica claro é que a política de drogas, há décadas dominada pela repressão e pela erradicação forçada, enfrenta agora um novo desafio: como combater o crime sem colocar em risco vidas inocentes? A Colômbia deu sua resposta. Outros terão que encontrar a deles.