Curaçau encerra Copa com lições e olha para o futuro
Seleção caribenha estreia no Mundial e surpreende com desempenho técnico; Dick Advocaat destaca potencial de novos talentos

A menor nação já classificada para uma Copa do Mundo deixou sua marca no Catar 2022. Curaçau, ilha caribenha com pouco mais de 160 mil habitantes, encerrou sua primeira participação em Mundiais com um retrospecto que vai além dos resultados em campo. O técnico Dick Advocaat, que comandou a equipe durante o torneio, não poupou elogios ao time e já acendeu o alerta para a continuidade do trabalho, mesmo com a eliminação na fase de grupos.
A estreia da seleção de Curaçau no Mundial foi marcada pela derrota por 1 a 0 para a Holanda, em jogo equilibrado que mostrou a capacidade dos caribenhos de segurar um gigante europeu. Na sequência, a equipe empatou sem gols com a Inglaterra, time que viria a ser semifinalista, e fechou a participação com uma derrota por 2 a 1 para o Senegal, atual campeão africano. Apesar das três derrotas, o desempenho técnico chamou a atenção, especialmente pela organização defensiva e pela disposição física dos jogadores, muitos deles atuando em ligas europeias ou sul-americanas.
O que mais impressionou foi a forma como a equipe, formada majoritariamente por atletas nascidos ou criados no exterior, manteve a identidade de jogo mesmo diante de adversários muito mais experientes. Jogadores como el-Ghazi, que atua no futebol holandês, e Leandro Bacuna, com passagem pela Premier League, foram peças-chave na campanha. Advocaat, que assumiu o comando em 2021, destacou em entrevistas após a eliminação que o time tem potencial para evoluir, mas frisou a necessidade de investir em jovens talentos locais para garantir sustentabilidade a longo prazo.
"Eles jogaram com muita garra e inteligência, mesmo sem o mesmo nível de experiência dos outros times. O que falta agora é estrutura para desenvolver mais jogadores como esses", afirmou o treinador, que já deixou claro que não deve continuar no cargo após o Mundial. A federação local, por sua vez, já sinalizou que buscará manter a base da equipe e ampliar os investimentos em categorias de base, algo raro em países com o perfil de Curaçau.
Para o torcedor tocantinense, acostumado a ver seleções de pequeno porte em Copas do Mundo, a campanha de Curaçau serve como inspiração. O estado do Tocantins, que já produziu jogadores como o lateral-direito Daniel Alves (em passagens pelo futebol brasileiro) e o meia Juninho (ex-Palmeiras), sabe como é difícil manter uma estrutura consistente para revelar novos talentos. A diferença, no entanto, é que Curaçau, mesmo com recursos limitados, conseguiu montar uma equipe competitiva graças a uma política de formação que prioriza a captação de jovens em ligas amadoras e a integração com times europeus.
A federação de Curaçau já anunciou que vai priorizar a continuidade do projeto, mesmo com a troca de comando técnico. A ideia é aproveitar o embalo da Copa para atrair mais patrocínios e fortalecer as categorias de base, que hoje contam com cerca de 300 jovens em treinamentos. "Não adianta só ter jogadores bons agora. Precisamos garantir que a próxima geração também tenha oportunidades", declarou um dirigente, que pediu anonimato.
O caso de Curaçau reforça uma tendência no futebol mundial: a valorização de seleções que, mesmo sem tradição, apostam em trabalho de base e integração com o futebol europeu. Para o Brasil, que já viu times como a Croácia e a Sérvia se beneficiarem desse modelo, a lição é clara. A CBF, por exemplo, poderia estudar parcerias com estados como o Tocantins para identificar talentos precocemente, evitando que jogadores promissores sejam perdidos para outros esportes ou para a migração precoce para centros maiores.
Ainda não há previsão de quando Curaçau voltará a disputar uma Copa do Mundo, mas a federação já estuda a participação em edições futuras da Liga das Nações da CONCACAF, torneio que pode servir como vitrine para os jogadores. Enquanto isso, os torcedores caribenhos já comemoram o feito histórico: pela primeira vez, o mundo parou para assistir a uma seleção de Curaçau jogar futebol de alto nível.
A pergunta que fica é: até quando outras nações pequenas terão que esperar para ter sua vez no maior palco do futebol? A resposta pode estar no trabalho que já começou nas ilhas caribenhas.