Cooperativismo vira patrimônio cultural e ganha verba no Brasil
Reconhecimento federal abre portas para fundos de desenvolvimento e fortalece modelo no Tocantins 17/05/2024

O cooperativismo brasileiro acaba de entrar para a lista oficial de manifestações culturais do país. A decisão, publicada nesta quarta-feira (17), coloca o setor em um patamar inédito: agora, ele pode acessar recursos de fundos regionais de desenvolvimento, como o FCO (Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste), que já financia projetos em Tocantins, Mato Grosso e Goiás. O anúncio foi feito pelo Ministério da Cultura em parceria com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, dois órgãos que, até então, não tinham uma relação tão direta com o cooperativismo.
A novidade chega em um momento em que o modelo cooperativista ganha força no Tocantins, especialmente nas regiões produtoras de grãos e na pecuária. Em Gurupi, por exemplo, cooperativas de soja e milho já movimentam milhões de reais anualmente, enquanto em Araguaína, as cooperativas de leite e derivados se consolidam como alternativa para pequenos produtores. No entanto, até agora, o setor enfrentava barreiras para obter financiamentos específicos, já que não era reconhecido como atividade cultural — um detalhe que, agora, muda completamente o jogo.
Para o presidente da Organização das Cooperativas do Tocantins (Ocoti), José Wilson de Oliveira, a medida é um divisor de águas. "Isso significa que cooperativas como a nossa, que já geram emprego e renda em mais de 50 municípios tocantinenses, poderão pleitear recursos que antes estavam fora do alcance", afirmou. Segundo ele, o Tocantins tem 120 cooperativas registradas, com mais de 15 mil associados, e a expectativa é de que os novos recursos ajudem a modernizar estruturas, ampliar mercados e até criar novos postos de trabalho em cidades como Porto Nacional, onde a agricultura familiar é a base da economia.
O reconhecimento não é apenas simbólico. Ele abre caminho para que o cooperativismo acesse linhas de crédito do FCO, que já destinou R$ 1,2 bilhão para empreendimentos no Tocantins nos últimos dois anos — boa parte deles voltados para agroindústria e logística. Além disso, o Ministério da Cultura anunciou que vai destinar R$ 50 milhões em 2024 para projetos que integrem cultura e desenvolvimento econômico, e as cooperativas poderão concorrer a esses recursos. "Não é só dinheiro, é também a possibilidade de fortalecer a identidade local", explica Oliveira. "Em um estado onde a cultura sertaneja e a produção rural andam juntas, isso faz todo o sentido."
No entanto, o desafio agora é garantir que as cooperativas tocantinenses estejam preparadas para aproveitar a oportunidade. Em Palmas, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico já anunciou um ciclo de capacitações para gestores cooperativistas, com foco em elaboração de projetos e gestão de recursos. "Muitas cooperativas têm dificuldade em acessar editais porque não sabem como estruturar as propostas", comenta a secretária-adjunta, Maria Aparecida Costa. A primeira turma começa em junho, com vagas para representantes de cooperativas de todo o estado.
A medida também pode ter reflexos na política local. O deputado estadual Carlos Gaguim (União Brasil), que há anos defende políticas públicas para o cooperativismo, já protocolou um projeto de lei para criar um fundo estadual específico para o setor. "O Tocantins tem potencial para ser referência nacional em cooperativismo, mas falta articulação", afirmou. Segundo ele, a nova legislação estadual poderia complementar os recursos federais e criar um ambiente ainda mais favorável para o crescimento das cooperativas.
Enquanto isso, nas ruas de Araguaína, o produtor rural João Silva, 52 anos, comemora a notícia. Ele é associado a uma cooperativa de leite há dez anos e já viu de perto como o modelo ajuda a manter famílias no campo. "Antes, a gente dependia só do atravessador. Hoje, a cooperativa negocia direto com as indústrias e a gente recebe melhor", conta. Para ele, o acesso a novos recursos pode significar a compra de equipamentos ou até a construção de uma pequena fábrica de queijo na propriedade. "Isso aqui é o futuro da gente", diz, enquanto ordenha suas vacas na zona rural do município.
O próximo passo é a regulamentação dos editais que vão operacionalizar os recursos. O Ministério da Cultura informou que os critérios serão publicados nos próximos 30 dias, e as cooperativas terão 60 dias para apresentar projetos. Enquanto isso, em Gurupi, a cooperativa de soja Coagril já começou a se mobilizar para inscrever um projeto de expansão de armazenagem, que deve gerar 50 empregos diretos na região. A expectativa é que, até o final do ano, outras cooperativas tocantinenses sigam o mesmo caminho.
Para o setor, o reconhecimento cultural é mais do que um título: é a chance de mostrar que o cooperativismo não é apenas um modelo econômico, mas uma forma de viver e produzir no Tocantins.