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Mercúrio em sangue de gestantes Munduruku preocupa saúde pública

Mulheres grávidas da Terra Indígena Munduruku, no Pará, apresentam níveis de contaminação por mercúrio quatro vezes e meia acima do permitido.

📝 Redação CCN04 de junho de 2026 às 11:52👁 1 leituras
Mercúrio em sangue de gestantes Munduruku preocupa saúde pública

Gestantes da Terra Indígena Munduruku, localizada na região do Médio Tapajós, no Pará, vivem uma situação crítica: o mercúrio encontrado em seus organismos ultrapassa em quatro vezes e meia o nível considerado seguro. O achado coloca em risco direto não apenas as mulheres grávidas, mas também seus bebês — o mercúrio atravessa a placenta e afeta o desenvolvimento fetal.

A contaminação não surgiu por acaso. Durante décadas, a região do Tapajós serviu como palco de mineração ilegal de ouro, prática que persiste até hoje apesar dos esforços de fiscalização. Na extração do ouro em pequena escala, garimpeiros usam mercúrio para separar o metal precioso do sedimento. O mercúrio vaporiza, contamina o ar, infiltra no solo e, principalmente, escoa para os rios — que são a fonte de água e alimento para as comunidades indígenas.

O povo Munduruku depende do rio Tapajós. Pescam ali, bebem água da região, plantam roças nas margens. Quando o mercúrio entra nesse ciclo, contamina os peixes que comem e a água que bebem. O metal pesado se acumula no corpo humano — um processo chamado bioacumulação. Mulheres em idade reprodutiva concentram ainda mais mercúrio porque o corpo feminino absorve e retém essa substância de forma diferente do masculino.

Os riscos para os bebês são bem documentados. O mercúrio afeta o desenvolvimento neurológico, podendo causar atraso motor, dificuldades de aprendizado, problemas auditivos e visuais. Em casos graves, causa encefalopatia — lesão cerebral permanente. Para as gestantes, a exposição aumenta o risco de aborto espontâneo e complicações na gravidez.

Esse não é um problema isolado do Pará. A contaminação por mercúrio em comunidades indígenas amazônicas é conhecida há anos. O que diferencia o caso Munduruku é a magnitude: os níveis encontrados são excepcionalmente altos. Estudos anteriores já apontavam a região como um dos hotspots de contaminação na Amazônia brasileira. Mas enquanto pesquisadores documentavam a situação, a atividade garimpeira continuava — muitas vezes tolerada ou ignorada por autoridades locais.

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e órgãos de saúde federal reconhecem o problema, mas as ações têm sido lentas. Existe um vazio entre o conhecimento científico da contaminação e políticas públicas efetivas que impeçam a mineração ilegal e que ofereçam suporte real às comunidades afetadas. Parece estar claro que gestantes Munduruku precisam de acompanhamento intensivo, exames periódicos e orientações sobre alimentação segura. Mas essas estruturas não estão implantadas em aldeias isoladas da Amazônia.

O cenário é particularmente grave porque os Munduruku — povo de aproximadamente 14 mil pessoas — já enfrentam vulnerabilidades de saúde. O acesso a serviços médicos especializados é precário. Uma gestante com altos níveis de mercúrio deveria ter acompanhamento rigoroso, incluindo ultrassons frequentes e possível monitoramento fetal especializado. Na prática, muitas realizam pré-natal em unidades básicas sem estrutura para lidar com contaminação ambiental.

Os desdobramentos esperados incluem investigações aprofundadas sobre as fontes de contaminação, operações para desmantelar garimpos ilegais na região e programas de monitoramento da saúde materno-infantil entre os Munduruku. O Brasil também enfrentará pressão internacional — organizações de direitos humanos e ambientais já estão de olho nesse caso como símbolo da inação governamental frente a crimes ambientais nas terras indígenas.

Enquanto isso, mulheres Munduruku grávidas convivem com a incerteza: carregam mercúrio em seu corpo e não sabem com certeza que consequências isso terá para seus filhos.