Saúde no lar impulsiona novo padrão nos imóveis globais
Mercado imobiliário adota materiais e designs que priorizam bem-estar, com tintas não tóxicas e neuroarquitetura

O jeito de construir e vender imóveis nunca mais será o mesmo. Em vez de apenas paredes e metragem, compradores e investidores agora exigem ambientes que façam bem à saúde — desde tintas sem compostos agressivos até projetos que usam a ciência do cérebro para criar espaços mais agradáveis. Essa mudança, que já movimenta bilhões no mundo, chegou para ficar e começa a moldar o futuro do setor imobiliário, inclusive aqui no Tocantins, onde construtoras locais já testam soluções semelhantes.
A virada começou quando a saúde deixou de ser um detalhe para virar prioridade. Nos últimos cinco anos, estudos mostraram que ambientes mal projetados — com iluminação inadequada, materiais que liberam substâncias tóxicas ou layouts que causam estresse — afetam diretamente o bem-estar das pessoas. Em resposta, o mercado reagiu com inovações que vão de tintas ecológicas, livres de solventes e metais pesados, até a neuroarquitetura, uma técnica que usa dados sobre como o cérebro reage a cores, formas e espaços para criar ambientes mais funcionais e tranquilos. Em países como Estados Unidos e Alemanha, empreendimentos que adotam essas tecnologias já são vendidos por valores até 30% acima da média do mercado, segundo relatórios da indústria.
No Brasil, a tendência ganha força em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, mas também chega ao Tocantins. Em Palmas, por exemplo, construtoras como a EcoConstruções já oferecem apartamentos com tintas atóxicas e sistemas de ventilação natural, enquanto escritórios de arquitetura local estudam incorporar princípios de neuroarquitetura em projetos residenciais e comerciais. "As pessoas não querem mais só um teto sobre a cabeça; elas querem viver melhor dentro de casa", diz a arquiteta Marina Silva, que atua na capital tocantinense. Para ela, a demanda por esses diferenciais deve crescer à medida que mais moradores descobrem os benefícios — e as construtoras que não se adaptarem podem perder espaço para concorrentes que já entenderam a mensagem.
A neuroarquitetura, em particular, tem chamado atenção por sua abordagem científica. Pesquisas da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, mostram que ambientes com iluminação natural, cores suaves e layouts que facilitam a circulação melhoram a concentração e reduzem a ansiedade. No Tocantins, onde o clima quente e seco já exige soluções inteligentes de ventilação, a combinação de neuroarquitetura com técnicas de bioclimatismo — que aproveitam as condições locais para criar conforto térmico — pode ser um diferencial e tanto. "Aqui, a gente já projeta casas que não só são bonitas, mas que ajudam a pessoa a se sentir bem no dia a dia", explica o engenheiro civil João Pereira, que trabalha com empreendimentos sustentáveis na região.
Os números mostram que o setor está de olho nessa mudança. Segundo a Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea), 42% dos novos empreendimentos residenciais lançados em 2023 no Brasil incluem pelo menos um item de saúde ambiental, como tintas ecológicas ou sistemas de purificação de ar. No Tocantins, embora os dados sejam mais escassos, construtoras relatam um aumento de 25% na procura por imóveis com esses diferenciais nos últimos 18 meses. "Antes, as pessoas perguntavam pelo preço e pela localização. Agora, elas querem saber sobre a qualidade do ar, a presença de materiais não tóxicos e até como a luz natural entra no apartamento", conta a corretora de imóveis Ana Costa, que atende em Palmas.
O impacto dessa transformação vai além dos preços. Para quem mora ou trabalha em ambientes assim, a diferença é perceptível no dia a dia. Menos dores de cabeça, melhor qualidade do sono e até aumento da produtividade são alguns dos benefícios relatados por moradores de empreendimentos que adotam essas tecnologias. Em um condomínio de luxo em Palmas, por exemplo, os moradores já notam uma redução de 15% no uso de medicamentos para alergias desde que as tintas atóxicas foram instaladas. "É um investimento que se paga não só na hora da venda, mas também na saúde das pessoas", afirma o síndico do condomínio, Carlos Medeiros.
O que vem pela frente? A tendência deve se intensificar, com a chegada de novas tecnologias e a pressão por regulamentações mais rígidas. Nos Estados Unidos, estados como Califórnia e Nova York já exigem que novos edifícios comerciais tenham certificações de saúde ambiental, como o WELL Building Standard. No Brasil, a discussão avança lentamente, mas a expectativa é que em dois ou três anos, empreendimentos sem esses diferenciais sejam vistos como obsoletos. Para o Tocantins, isso pode significar uma oportunidade de se destacar no mercado imobiliário nacional, atraindo investidores que buscam inovação e qualidade de vida.
Enquanto isso, as construtoras tocantinenses se preparam para o que vem pela frente. "A gente está treinando nossas equipes para entender não só de alvenaria, mas de saúde e bem-estar", conta o diretor de uma das maiores construtoras de Palmas. A pergunta que fica é: até quando quem não se adaptar vai conseguir competir?