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Prisão perpétua de El Mayo encerra era do Cartel de Sinaloa

Fundador do maior cartel mexicano foi condenado nos EUA após 50 anos de impunidade

📝 Redação CCN21 de julho de 2026 às 17:56👁 1 leituras
Prisão perpétua de El Mayo encerra era do Cartel de Sinaloa

A Justiça americana selou nesta semana um capítulo que muitos davam como eterno na história do crime organizado: a prisão perpétua do fundador do Cartel de Sinaloa, Ismael "El Mayo" Zambada. A decisão, tomada em um tribunal federal de Nova York, não apenas encerra a trajetória de um dos homens mais poderosos do narcotráfico global, como também marca o fim de uma geração de chefes que construíram impérios sobre o sangue e o medo no México.

Zambada, 76 anos, foi julgado e condenado por tráfico de drogas em escala internacional, lavagem de dinheiro e conspiração para importar fentanil aos Estados Unidos — substância responsável por dezenas de milhares de mortes por overdose a cada ano. Sua prisão, ocorrida em julho de 2024 após décadas de fuga, representou um golpe simbólico para o cartel que ele ajudou a erguer nas décadas de 1980 e 1990, ao lado de Joaquín "El Chapo" Guzmán. Enquanto Guzmán já cumpre pena de prisão perpétua nos EUA, Zambada era o último grande nome da velha guarda ainda em liberdade, mesmo que protegido por uma rede de aliados e cúmplices que se estendia do México ao Canadá.

O processo contra ele revelou detalhes de uma operação que movimentou bilhões de dólares anualmente, com rotas que iam do México até as ruas de cidades americanas como Los Angeles, Chicago e Nova York. Documentos apresentados pela promotoria mostraram que, entre 2010 e 2024, o Cartel de Sinaloa teria faturado mais de US$ 50 bilhões com a venda de cocaína, metanfetamina e fentanil. A droga sintética, em especial, foi responsável por um aumento de 50% nas mortes por overdose nos EUA entre 2020 e 2023, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

Para o México, a condenação de Zambada é mais do que uma vitória simbólica. O país ainda luta para conter a violência que assolou regiões inteiras nas últimas décadas, com cartéis disputando territórios e corrompendo instituições. A prisão de El Mayo não vai apagar o passado, mas pode abrir brechas para que outros grupos menores tentem ocupar o vazio deixado — ou, quem sabe, para que o Estado finalmente consiga desmantelar estruturas que há anos operam como Estados paralelos. Autoridades mexicanas, no entanto, já admitem que o vazio de poder costuma gerar mais sangue antes de qualquer estabilização.

Nos EUA, a notícia foi recebida com alívio por famílias de vítimas do fentanil e por agentes que há anos tentavam desmantelar a rede de Zambada. "Este homem não era apenas um traficante, era um arquiteto da morte", declarou um promotor federal em entrevista coletiva após a sentença. A condenação, no entanto, não deve frear o fluxo de drogas para o norte. Outras organizações, como o Cartel Jalisco Nova Geração, já ocupam espaços deixados pelo Cartel de Sinaloa e seguem expandindo suas operações, inclusive em estados americanos onde a fiscalização é mais frágil.

O que muda agora é a dinâmica do tráfico. Com Zambada atrás das grades, o Cartel de Sinaloa pode se fragmentar em células menores, mais difíceis de serem monitoradas. Ou, ao contrário, pode se tornar ainda mais violento na tentativa de manter o controle. O tempo dirá. O que não muda é a realidade de milhões de pessoas que, de um lado ou de outro da fronteira, seguem pagando o preço de uma guerra que não pediram.

A condenação de El Mayo também jogou luz sobre a rede de proteção que permitiu sua impunidade por tanto tempo. Relatórios da DEA (agência antidrogas americana) e da Procuradoria-Geral do México apontam para a participação de policiais, políticos e até juízes que, ao longo dos anos, receberam propinas para garantir que Zambada nunca fosse capturado. Em 2019, por exemplo, um ex-chefe da polícia federal mexicana foi preso nos EUA por ajudar o cartel a lavar dinheiro. A corrupção, nesse caso, não foi apenas um detalhe: foi a base do império.

Para o Brasil, a notícia pode soar distante, mas não é. O país é uma das principais rotas para o tráfico de cocaína produzida na Colômbia e no Peru, que chega ao México antes de ser enviada aos EUA. A prisão de Zambada não deve interromper esse fluxo, mas pode forçar uma reorganização das rotas — e, consequentemente, aumentar a pressão sobre as fronteiras brasileiras. Autoridades brasileiras já alertam para um possível aumento no tráfico de armas e drogas na região Norte, especialmente no Amazonas e no Acre, estados que fazem fronteira com o Peru e a Colômbia.

O próximo passo nos EUA é a extradição de outros líderes do cartel que ainda estão soltos, incluindo dois filhos de El Mayo, Ismael e Vicente Zambada. A Justiça americana já sinalizou que não vai parar por aqui. Enquanto isso, no México, o governo de Claudia Sheinbaum — que assumiu o cargo em outubro de 2024 — prometeu uma política de "mão dura" contra o crime organizado. Se a história serve de exemplo, no entanto, a prisão de um chefe nunca foi suficiente para acabar com o problema. Apenas muda o jogo.

Uma coisa é certa: a era dos barões do narcotráfico que construíram impérios com sangue e dinheiro está chegando ao fim. Mas a guerra contra as drogas, essa, continua — e ninguém sabe ao certo quem vai erguer a próxima bandeira.