Brasileira lidera busca pelos segredos do Universo primordial no Atacama
Gerente do projeto CLASS estuda radiação cósmica a 5 mil metros de altitude para entender o cosmos aos 380 mil anos de idade

Uma cientista brasileira está no comando de um dos projetos mais ambiciosos para desvendar como o Universo nasceu e evoluiu. Ela gerencia o CLASS, um observatório instalado no deserto do Atacama, no Chile, a uma altitude de 5 mil metros, onde telescópios especializados capturam a luz mais antiga que conseguimos detectar — aquela emitida quando o cosmos tinha apenas 380 mil anos de vida.
O projeto CLASS significa Cosmic Microwave Background Radiation Polarization Experiment, em tradução livre: experimento para medir a polarização da radiação de fundo de microondas. Essa radiação é o brilho deixado para trás depois do Big Bang, a explosão que criou tudo o que existe. Para ter uma ideia da escala temporal, o Universo hoje tem 13,8 bilhões de anos. Então estamos falando de estudar luz de uma época incomparavelmente antiga.
O Atacama não foi escolhido por acaso. O deserto chileno é um dos lugares mais secos e com menos interferência atmosférica do planeta. A altitude extrema reduz ainda mais a quantidade de ar entre os telescópios e o cosmos, permitindo capturas de sinais com precisão quase impossível em outros locais. Isso importa porque estamos tentando ler mensagens muito fracas enviadas por um Universo muito, muito jovem.
O trabalho realizado neste observatório contribui para responder perguntas fundamentais: como se formaram as primeiras estruturas do Universo? O que causou a inflação cósmica, aquela expansão exponencial nos primeiros frações de segundo após o Big Bang? Há padrões na distribuição da matéria e energia que possam revelar como tudo começou? A liderança de uma brasileira em um projeto dessa magnitude coloca a ciência nacional em destaque global.
Para chegar até ali, o trabalho envolveu colaboração entre instituições de vários países, engenheiros e físicos especializados em detectar sinais que viajam há bilhões de anos. Os dados coletados são depois analisados por equipes ao redor do mundo, gerando publicações científicas que refinam nosso entendimento sobre as leis fundamentais da física.
O impacto dessa pesquisa vai além do conhecimento puro. Tecnologias desenvolvidas para esses observatórios costumam encontrar aplicações práticas em telecomunicações, medicina e outras áreas. Mais importante: cada descoberta sobre as origens do Universo desafia nossas convicções e expande o que é possível conhecer cientificamente.
Para o público em geral, projetos como o CLASS representam algo maior: a capacidade humana de questionar, investigar e buscar respostas mesmo diante do desconhecido. Eles lembram que a curiosidade científica segue em frente, que há brasileiros contribuindo para os maiores mistérios cósmicos, e que a compreensão sobre nossas origens continua sendo uma das empresas mais nobres da civilização.
O observatório seguirá operando e coletando dados, alimentando descobertas que podem levar anos para serem completamente compreendidas. A ciência não entrega respostas prontas — ela constrói conhecimento passo a passo, observação após observação, em laboratórios e telescópios espalhados pelos lugares mais extremos da Terra.