Centro histórico de Porto Nacional mostra sinais de abandono
Igrejas, casarões e praças da cidade mais antiga do Tocantins apresentam deterioração e falta de manutenção

O casario colonial, as igrejas barrocas e as praças arborizadas do centro histórico de Porto Nacional guardam memórias de séculos, mas hoje enfrentam um problema que não poupa nem mesmo os símbolos mais antigos do Tocantins: a deterioração. Fachadas descascadas, calçadas esburacadas e estruturas de madeira apodrecendo são cenas comuns em um dos conjuntos arquitetônicos mais importantes do estado, que já foi palco de eventos históricos e hoje parece esquecido pela gestão pública.
As igrejas matrizes, como a de Nossa Senhora das Mercês e a de Nossa Senhora do Rosário, além dos casarões do século XVIII que abrigaram famílias tradicionais, mostram sinais claros de desgaste. Em alguns pontos, os azulejos originais estão soltos, as portas de madeira estão empenadas e os telhados apresentam infiltrações que comprometem a estrutura. A praça central, outrora ponto de encontro e lazer, tem bancos quebrados e piso irregular, o que afasta moradores e visitantes. Segundo moradores antigos, a situação piorou nos últimos dois anos, quando obras de restauração prometidas pela prefeitura não avançaram além de pequenos reparos.
O problema não se limita à estética. A falta de manutenção afeta diretamente a segurança dos pedestres, que precisam desviar de buracos e degraus soltos, e a saúde pública, já que a umidade nas paredes pode atrair insetos e doenças. Além disso, o abandono afasta turistas, que poderiam movimentar a economia local com visitas guiadas e vendas de artesanato. Porto Nacional, cidade com cerca de 30 mil habitantes, já foi referência em turismo cultural no estado, mas hoje vê seu potencial se esvair diante da inércia.
Os dados oficiais confirmam o cenário. Em relatório da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Nacional, obtido pela reportagem, consta que 60% das edificações históricas do centro apresentam algum tipo de dano estrutural. A prefeitura alega falta de recursos, mas moradores questionam a prioridade dada a outras obras, como a duplicação da TO-050, que custou milhões e não trouxe melhorias para o patrimônio local. "A gente vê dinheiro saindo para outras frentes enquanto o que é nosso, que é a identidade da cidade, vai se perdendo", desabafou um comerciante que atua há 15 anos no centro.
A situação chamou a atenção do Ministério Público do Tocantins, que abriu um inquérito civil para investigar possíveis irregularidades na gestão do patrimônio histórico. O promotor responsável pelo caso, que não quis se identificar, afirmou que o MP pode acionar a prefeitura para cobrar ações concretas, como um plano de restauração emergencial. "O patrimônio histórico não é apenas um bem material, é parte da memória coletiva. Quando ele se deteriora, a cidade perde um pedaço de si mesma", declarou.
Para os moradores, a solução passa por duas frentes: pressão popular e recursos específicos. A Associação de Moradores do Centro Histórico de Porto Nacional já protocolou um pedido na Câmara Municipal para que 10% do orçamento anual da cidade sejam destinados à preservação do patrimônio. "A gente não quer que Porto Nacional vire um museu a céu aberto, mas também não dá para deixar que se transforme em um cemitério de paredes antigas", disse a presidente da associação, que pediu para não ser identificada.
Enquanto isso, a prefeitura de Porto Nacional informou, por meio de nota, que estuda parcerias com o governo estadual e o IPHAN para viabilizar recursos federais e estaduais. A gestão também anunciou que vai mapear todas as edificações históricas até o final do ano, mas não adiantou prazos para as obras. A reportagem tentou contato com a Secretaria de Cultura do estado, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.
O caso de Porto Nacional não é isolado no Tocantins. Em outras cidades históricas, como Natividade e São João do Araguaia, também há relatos de abandono de patrimônio. A diferença é que, em Porto Nacional, a concentração de bens tombados é maior, o que torna a situação ainda mais urgente. Para quem vive ali, a espera por mudanças já dura tempo demais.
A próxima audiência pública sobre o tema está marcada para o dia 15 de novembro, na Câmara Municipal de Porto Nacional. Moradores e entidades devem apresentar propostas e cobrar respostas da gestão pública. Até lá, as paredes do centro histórico continuarão a contar uma história que ninguém quer ouvir: a de uma cidade que esqueceu de cuidar de si mesma.