Casa submersa no Lago de Palmas lembra povoado do século 18
Estrutura encontrada por pescador em junho reacende memória da Vila Canela, submersa em 2001

Um pedaço da história do Tocantins voltou a aparecer na superfície do Lago de Palmas no mês passado. Uma casa antiga, que fazia parte da Vila Canela — comunidade ribeirinha do século 18 às margens do rio Tocantins — foi localizada submersa por um pescador esportivo em junho deste ano. O achado não é apenas um registro arqueológico, mas um lembrete de como a construção da Usina Hidrelétrica Luís Eduardo Magalhães, em 2001, transformou para sempre a paisagem e a vida de quase 200 famílias que viviam na região.
A Vila Canela não era um povoado qualquer. Fundada há mais de 300 anos, ela fazia parte da rota de comunidades que dependiam do rio para sobreviver, seja pela pesca, pelo comércio ou pela agricultura de subsistência. Com a chegada da usina, o enchimento do reservatório cobriu não apenas casas, mas também memórias, documentos e a identidade de quem precisou deixar suas terras. A casa encontrada agora, mesmo que parcialmente submersa, carrega pedaços dessa trajetória. O pescador que a localizou estava em atividade rotineira quando avistou estruturas de madeira e alvenaria emergindo das águas, a cerca de 20 metros da margem, próximo ao que hoje é a área de lazer do Lago de Palmas, em Palmas.
Para quem vive na capital ou nos municípios vizinhos, o Lago de Palmas não é só um cartão-postal. Ele é um símbolo de progresso e, ao mesmo tempo, de perdas. A usina, inaugurada em 2002, trouxe energia para o estado, mas também mudou o curso do rio e submergiu comunidades inteiras. A Vila Canela não foi a única afetada: relatos de moradores da época falam em reassentamentos forçados, indenizações que não cobriram prejuízos e a quebra de um modo de vida que durava gerações. Hoje, o lago é ponto de pesca, turismo e lazer, mas também esconde vestígios de um passado que muitos preferem não lembrar.
A descoberta da casa submersa não é inédita. Em 2022, outras estruturas foram identificadas na mesma região, mas a novidade agora é o estado de conservação. Segundo relatos de moradores antigos, a casa poderia ser de uma família que vivia da produção de farinha ou da pesca no local. Não há registros oficiais sobre a propriedade, mas a memória coletiva aponta que o local era ponto de parada para viajantes e comerciantes que desciam o rio Tocantins. A Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) confirmou que não há previsão de retirada do material, já que a área está sob a alçada da concessionária da usina, a Eletrobras Furnas.
O achado reacende discussões sobre o que ficou para trás com a construção da hidrelétrica. Em 2001, quando o reservatório foi enchido, cerca de 200 famílias foram deslocadas. Muitas receberam indenizações, mas nem todas conseguiram se adaptar ao novo local. Algumas se mudaram para bairros de Palmas, como o Jardim Aureny III ou o Taquaralto, enquanto outras foram para municípios vizinhos, como Porto Nacional ou Brejinho de Nazaré. A promessa de desenvolvimento não se concretizou para todos, e o lago, que deveria ser uma fonte de riqueza, tornou-se também um cemitério de memórias.
Para a população local, o Lago de Palmas é um lugar de contrastes. De dia, é frequentado por famílias que fazem piqueniques ou praticam esportes aquáticos. À noite, a orla se enche de bares e restaurantes que atraem moradores e turistas. Mas debaixo d’água, há histórias que a água não deixou desaparecer por completo. A casa encontrada em junho é um desses vestígios. Enquanto não há um projeto para resgatar ou documentar esses achados, eles seguem ali, como testemunhas silenciosas de um tempo que não volta mais.
A Eletrobras Furnas, responsável pela usina, informou que não há previsão de ações emergenciais no local. A empresa destacou que a área está dentro do reservatório e que qualquer intervenção dependeria de estudos prévios, considerando a segurança e a preservação ambiental. Enquanto isso, o lago continua a ser um espelho d’água que reflete não só o céu de Palmas, mas também os ecos de um passado que muitos preferem esquecer.
O que fazer com essas descobertas? A pergunta fica no ar. Se por um lado elas podem servir como material para pesquisas históricas ou até mesmo para projetos de turismo cultural, por outro, trazem à tona feridas que ainda não cicatrizaram. A Vila Canela não existe mais, mas seus vestígios seguem ali, esperando para serem lembrados — ou esquecidos — pela história oficial do Tocantins.