Campanhas presidenciais ignoram 15 Estados no início da disputa
Em 16 dias de campanha, seis candidatos não visitaram 15 Estados; Sudeste concentra 66% das ações

Nas primeiras duas semanas de campanha eleitoral, seis candidatos à Presidência da República não colocaram os pés em 15 Estados brasileiros. Enquanto isso, o Sudeste segue como o principal palco das visitas, com 66% do total de deslocamentos registrados até agora.
A ausência chama atenção, sobretudo porque a campanha mal começou. Lula, Flávio, Caiado, Zema, Cury e Renan — que lideram as pesquisas ou disputam espaço nas intenções de voto — não priorizaram estados como Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba, Paraná, Piauí e Rondônia. A lista foi compilada com base em registros públicos de deslocamentos, sem incluir viagens internacionais ou eventos virtuais.
O Sudeste, por outro lado, já soma mais da metade das visitas. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais lideram a lista, seguidos por Espírito Santo e Rio Grande do Sul. A concentração reflete não apenas a densidade populacional da região, mas também a estratégia de campanha, que costuma apostar em estados com maior número de eleitores e colégios eleitorais mais expressivos.
A disparidade geográfica da campanha levanta questões sobre a representatividade do processo eleitoral. Eleitores de estados como Acre e Amapá, por exemplo, sequer tiveram a oportunidade de ouvir os candidatos em seus territórios. A ausência física pode ser compensada por propagandas na televisão e nas redes sociais, mas a interação direta — fundamental para construir confiança — fica limitada.
Para quem vive nesses 15 Estados, a sensação é de abandono político. Em cidades menores, onde a presença de candidatos costuma ser mais simbólica, a falta de visitas reforça a ideia de que o jogo já está decidido antes mesmo do primeiro turno. A estratégia, embora racional do ponto de vista eleitoral, ignora a diversidade do país e a importância de dialogar com todas as regiões.
Os números mostram o quanto o Sudeste domina a cena. Dos 16 dias analisados, 66% das viagens tiveram como destino estados da região. São Paulo, sozinho, recebeu mais visitas do que todos os 15 Estados juntos que ficaram de fora. A Bahia, maior colégio eleitoral do Nordeste, não foi visitada por nenhum dos seis candidatos. O mesmo aconteceu com o Pará, que tem o maior número de eleitores na região Norte.
A estratégia não é nova. Em eleições anteriores, candidatos também concentraram esforços em estados-chave, deixando de lado regiões menos competitivas ou com menor peso no cálculo do Colégio Eleitoral. No entanto, a ausência prolongada pode gerar descontentamento entre eleitores e lideranças locais, que se sentem excluídos do processo.
O que esperar agora? Se a tendência se mantiver, os 15 Estados continuarão a ser coadjuvantes na campanha. A menos que haja uma reviravolta, a disputa seguirá concentrada em poucas praças, enquanto milhões de eleitores terão que se contentar com aparições virtuais ou indiretas. A pergunta que fica é: até que ponto essa estratégia é sustentável em um país de dimensões continentais como o Brasil?
Os dados foram levantados com base em registros de deslocamentos oficiais dos candidatos e suas equipes. Não foram consideradas viagens internacionais ou eventos transmitidos exclusivamente pela internet. A ausência de visitas não impede que os candidatos façam campanha em outros formatos, mas evidencia uma escolha clara de prioridades geográficas.