Tarifaço afunda calçadistas brasileiros e derruba exportações
Setor projeta queda de 7,1% nas vendas externas com sobretaxa de importação anunciada pelo governo federal em setembro

A decisão do governo federal de aumentar as tarifas de importação de calçados já começa a mostrar seus primeiros efeitos negativos. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), a medida deve reduzir as exportações do setor em 7,1% até o final do ano, ameaçando milhares de empregos e a competitividade das empresas brasileiras no exterior. A entidade alerta que a sobretaxa, aplicada desde setembro, inviabiliza operações de fabricantes que dependem de componentes importados ou que competem diretamente com produtos estrangeiros no mercado interno.
O problema não é novo para quem acompanha o setor. Há anos, a indústria calçadista brasileira enfrenta concorrência desleal de países asiáticos, especialmente da China, que dominam o mercado com preços baixos e produção em escala. A pandemia agravou a situação, reduzindo a demanda global e forçando muitas fábricas a operar com margens apertadas. Agora, com a nova tarifa, a situação piorou. "A medida não protege a indústria nacional, apenas encarece os custos para quem já produz aqui", afirmou um diretor da Abicalçados, que pediu para não ser identificado. Segundo ele, muitas empresas já reduziram turnos ou demitiram funcionários para compensar o impacto da sobretaxa.
Para o Tocantins, onde a indústria calçadista tem peso econômico — especialmente em municípios como Araguaína e Gurupi —, a notícia é preocupante. A região abriga fábricas que abastecem não só o mercado local, mas também outros estados, como Pará e Maranhão. Com a queda nas exportações, o setor corre o risco de encolher, afetando diretamente a geração de empregos formais. "Aqui, a maioria das empresas são de pequeno e médio porte, que já operam com dificuldade. Uma redução de 7% nas vendas pode significar o fechamento de algumas delas", explicou um empresário do ramo, que atua há 20 anos no estado.
Os números da Abicalçados reforçam o alerta. Em 2022, o Brasil exportou US$ 1,2 bilhão em calçados, mas a expectativa para 2023 já era modesta antes da tarifa. Agora, a projeção é de queda para US$ 1,1 bilhão, um recuo de 7,1%. O setor emprega diretamente cerca de 300 mil pessoas no país, segundo dados da entidade. No Tocantins, estima-se que pelo menos 5 mil trabalhadores dependem diretamente da indústria calçadista, sem contar os empregos indiretos gerados em fornecedores e prestadores de serviços.
A sobretaxa de importação foi anunciada como uma forma de proteger a indústria nacional, mas os resultados práticos estão sendo opostos. Empresas que dependem de máquinas, tecidos ou solados importados — essenciais para a produção de calçados de qualidade — agora enfrentam custos adicionais que não podem repassar aos preços finais sem perder competitividade. "O governo quer proteger, mas está sufocando quem já produz aqui", criticou o diretor da Abicalçados. Ele lembra que, em 2020, uma medida semelhante levou ao fechamento de dezenas de fábricas no Rio Grande do Sul, estado que concentra 40% da produção nacional de calçados.
O setor agora aguarda uma resposta do governo federal. A Abicalçados já entrou em contato com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) para discutir alternativas, como a redução da tarifa ou a criação de linhas de crédito para as empresas afetadas. Enquanto isso, os empresários do Tocantins e de outras regiões do país se preparam para um cenário ainda mais difícil nos próximos meses. A próxima feira internacional de calçados, que acontece em fevereiro em São Paulo, deve ser um termômetro da situação: se as vendas não reagirem, o setor pode entrar em colapso.
Para o consumidor final, a notícia também não é boa. Com a redução da produção e o aumento dos custos, os preços dos calçados brasileiros devem subir, beneficiando apenas os importados, que continuarão mais baratos. No Tocantins, onde o poder de compra já é limitado, essa alta pode afastar ainda mais os consumidores dos produtos locais, prejudicando a economia regional.
A indústria calçadista brasileira já sobreviveu a crises antes, mas desta vez o desafio é maior. A combinação de concorrência internacional, custos elevados e agora uma tarifa que não resolve o problema — pelo contrário, agrava — pode levar a um retrocesso de anos. O setor pede urgência nas negociações com o governo, mas o tempo corre contra quem depende dessa atividade para viver.