EUA impõem tarifa de 25% a 4 mil produtos brasileiros
Medida afeta exportações de setores-chave como agricultura e indústria a partir de 2024

O governo dos Estados Unidos anunciou na semana passada a aplicação de uma tarifa de 25% sobre mais de 4 mil produtos brasileiros, decisão que entra em vigor no início de 2024 e representa um novo capítulo nas tensões comerciais entre os dois países. A medida, que abrange desde commodities agrícolas até bens industrializados, foi oficializada após meses de negociações fracassadas entre Brasília e Washington, onde a Casa Branca ampliou a pressão sobre o Brasil para reduzir barreiras não tarifárias e abrir mais mercados para produtos americanos.
A lista de itens afetados inclui desde suco de laranja e carne bovina até componentes eletrônicos e máquinas agrícolas, setores que dependem fortemente das exportações para o mercado norte-americano. Segundo dados da Receita Federal, o Brasil exportou US$ 32 bilhões em produtos para os EUA em 2023, o que representa cerca de 12% do total das vendas externas do país. A nova tarifa, no entanto, deve reduzir a competitividade de empresas brasileiras nesses segmentos, especialmente aquelas que já enfrentam concorrência acirrada de produtores locais nos EUA.
Para o Tocantins, estado que tem na agropecuária um dos pilares de sua economia, a notícia acende um alerta. O estado é um dos maiores produtores de soja e carne bovina do país, produtos que estão na mira das tarifas americanas. Em 2023, o Tocantins exportou mais de US$ 1,8 bilhão em produtos agropecuários, sendo que 15% desse volume teve como destino os Estados Unidos. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) já sinalizou que deve buscar negociações diretas com o governo americano para minimizar os impactos, mas admite que a margem de manobra é limitada.
Empresários do setor no Tocantins já começam a se preparar para o pior. "A tarifa de 25% vai encarecer nossos produtos nos EUA e, consequentemente, reduzir a demanda", afirmou o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (Faet), José Wilson de Oliveira. Ele lembra que, em 2022, quando os EUA aplicaram tarifas sobre aço e alumínio brasileiros, as exportações do Tocantins para o mercado americano caíram 18% em seis meses. "Desta vez, o impacto pode ser ainda maior, porque a lista é mais extensa e atinge produtos que são a base da nossa economia", completou.
A decisão americana não é isolada. Nos últimos dois anos, Washington tem adotado uma postura mais agressiva em relação ao comércio exterior, impondo tarifas a parceiros comerciais como China, México e União Europeia. Para o Brasil, a situação é especialmente delicada porque os EUA são o segundo maior destino das exportações nacionais, atrás apenas da China. A nova tarifa afeta diretamente setores que já vinham sofrendo com a queda nos preços internacionais, como o de suco de laranja, cujo principal mercado é os EUA.
O Ministério da Fazenda do Brasil ainda estuda medidas de retaliação, mas a estratégia não é simples. O país depende fortemente das exportações para equilibrar sua balança comercial, e uma guerra comercial poderia prejudicar ainda mais a economia brasileira, já fragilizada pela alta do dólar e pela inflação persistente. Enquanto isso, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) já alertou que a medida pode levar a demissões em setores-chave, especialmente nas regiões onde a indústria é mais dependente das exportações.
O que se sabe até agora é que a tarifa de 25% será aplicada a partir de janeiro de 2024, mas não há previsão de quando ou se os EUA vão recuar. A única certeza é que o Brasil terá de se adaptar rapidamente para evitar perdas maiores. Enquanto isso, no Tocantins e em outros estados, produtores e indústrias já começam a buscar alternativas, como a diversificação de mercados e a renegociação de contratos.
O próximo passo da diplomacia brasileira será tentar uma reunião emergencial com representantes do governo americano para discutir a possibilidade de isenções ou redução das tarifas. Paralelamente, o Ministério da Agricultura já estuda a abertura de novos mercados na Ásia e na África para compensar as perdas nos EUA. No entanto, especialistas ouvidos pela reportagem destacam que, mesmo com essas iniciativas, o impacto da medida será sentido nos próximos meses, especialmente nas pequenas e médias empresas que não têm estrutura para absorver os custos adicionais.
A situação coloca o Brasil em uma encruzilhada: ceder às pressões americanas e abrir mais seu mercado para produtos estrangeiros, ou manter suas barreiras e enfrentar retaliações que podem prejudicar ainda mais a economia. Enquanto a decisão não chega, o setor produtivo brasileiro segue em alerta máximo, com a esperança de que a diplomacia consiga evitar o pior.