EUA ameaçam tarifa de 12,5% sobre exportações brasileiras
Governo dos EUA investiga trabalho forçado no Brasil e prepara medida que afeta setor exportador nacional 12.5% tarifa adicional

O Palácio do Planalto já acendeu o sinal amarelo. Autoridades brasileiras confirmam que os Estados Unidos caminham para impor uma tarifa extra de 12,5% sobre produtos brasileiros exportados para o mercado norte-americano. A decisão, ainda não oficializada, surge após uma investigação sobre denúncias de trabalho forçado em cadeias produtivas do Brasil. O anúncio deve sair nas próximas semanas, segundo fontes do governo federal ouvidas pela reportagem.
A medida não é novidade no comércio internacional. Em 2023, Washington já aplicou sobretaxas semelhantes a outros países, como a China, sob a justificativa de combater práticas desleais. Agora, o foco recai sobre o Brasil, que ocupa posição de destaque nas exportações globais de commodities como soja, carne e minério de ferro. A tarifa de 12,5% pode encarecer esses produtos nos EUA, reduzindo a competitividade brasileira frente a concorrentes como Argentina e Austrália.
Para o setor exportador, o impacto seria imediato. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que as vendas de carne bovina para os EUA, que somaram US$ 1,2 bilhão em 2023, poderiam cair até 30% com a nova barreira. Produtores rurais do Tocantins, um dos maiores estados exportadores de grãos do país, já começam a sentir o clima de incerteza. "A gente depende muito do mercado externo, e qualquer aumento de custo afeta diretamente o bolso do produtor", diz João Silva, presidente da Federação da Agricultura do Tocantins (Faet).
A investigação dos EUA não se limita a um setor específico. Segundo documentos obtidos pela imprensa internacional, fiscais americanos analisam denúncias de trabalho análogo à escravidão em frigoríficos do Centro-Oeste e em plantações de soja no Matopiba — região que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. A embaixada brasileira em Washington já foi acionada para negociar, mas o governo Lula enfrenta pressão interna para endurecer as regras trabalhistas antes que a tarifa seja confirmada.
O Ministério do Trabalho e Emprego informou que, desde janeiro, 14 operações foram realizadas em fazendas e indústrias suspeitas de irregularidades. Em uma delas, no sul do Tocantins, fiscais resgataram 22 trabalhadores em condições degradantes. "Não podemos permitir que a imagem do Brasil seja manchada por casos isolados", afirmou a ministra Camila Merigo. A pasta promete ampliar fiscalizações, mas o tempo é curto: a Casa Branca tem até 30 dias para notificar oficialmente a medida.
Enquanto Brasília busca alternativas, o setor privado já estuda rotas alternativas. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) estuda aumentar as vendas para a China e a União Europeia, onde as barreiras tarifárias são menores. "A gente não pode ficar parado esperando a decisão dos EUA", declarou o diretor-executivo da entidade, Ricardo Santin. No entanto, a transição não é simples: os EUA são o segundo maior comprador de carne brasileira, atrás apenas da China.
O Palácio do Planalto ainda espera que a pressão diplomática evite a tarifa. Ontem, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou com o secretário de Estado americano, Antony Blinken, para apresentar as ações do governo brasileiro no combate ao trabalho forçado. "A gente está mostrando que o Brasil está tomando providências, mas a decisão final não depende só de nós", admitiu um assessor próximo ao presidente Lula.
O que resta agora é aguardar. Se confirmada, a tarifa de 12,5% deve entrar em vigor em 60 dias, tempo suficiente para que os exportadores brasileiros ajustem suas estratégias — ou sofram as consequências. No Tocantins, a expectativa é de que os produtores rurais se unam para pressionar por soluções rápidas. Afinal, como diz o ditado, quando a maré sobe, os barcos sobem juntos — mas quando a maré baixa, só os preparados sobrevivem.