Brasil precisa de R$ 450 bi para estabilizar dívida pública
Pesquisadora da FGV aponta superávit de 2,5% do PIB como meta para conter endividamento nacional 2024

O Brasil precisa acumular um superávit primário de R$ 450 bilhões para estabilizar a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB). A avaliação é de Tatiana Pinheiro, pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e consultora econômica, que detalha os números em meio a um cenário de incertezas fiscais no país.
A dívida pública brasileira já ultrapassa 75% do PIB, um patamar que preocupa economistas e gestores públicos. Para reverter essa trajetória, Pinheiro defende que o governo deve gerar um superávit primário equivalente a 2,5% do PIB anualmente. Isso significa que, a cada ano, o país precisa economizar R$ 450 bilhões — recursos que não podem ser usados para pagar juros ou despesas correntes, mas sim para reduzir o endividamento.
A consultora lembra que, nos últimos anos, o Brasil tem registrado déficits primários recorrentes, ou seja, gastou mais do que arrecadou antes do pagamento de juros. Em 2023, por exemplo, o déficit chegou a R$ 125 bilhões, segundo dados do Tesouro Nacional. A situação se agrava quando se considera a alta taxa de juros praticada no país, que encarece ainda mais o custo da dívida.
Para o cidadão comum, a consequência direta dessa instabilidade é a pressão sobre os serviços públicos. Com menos recursos disponíveis, o governo pode reduzir investimentos em saúde, educação e infraestrutura, setores já historicamente carentes no Brasil. Além disso, a manutenção de uma dívida elevada pode levar a um aumento nos impostos ou a cortes em programas sociais, afetando diretamente o bolso da população.
A pesquisadora da FGV não poupa críticas ao atual modelo de gestão fiscal. Segundo ela, a falta de disciplina orçamentária nos últimos anos agravou o problema. "O Brasil precisa urgentemente de uma reforma fiscal que estabeleça metas claras e mecanismos de controle", afirmou Pinheiro. A especialista também destaca que, sem um ajuste consistente, o país corre o risco de enfrentar uma crise de confiança por parte dos investidores, o que poderia levar a uma fuga de capitais e a uma desvalorização ainda maior do real.
A meta de R$ 450 bilhões, embora desafiadora, não é inédita. Em 2019, o Brasil conseguiu gerar um superávit primário de R$ 90 bilhões, mas desde então a situação se deteriorou. A pandemia de Covid-19 e os gastos emergenciais agravaram o déficit, e a recuperação econômica tem sido lenta. Agora, com a inflação controlada e a taxa de juros em queda, há um cenário mais favorável para retomar o equilíbrio fiscal, mas a tarefa exige vontade política e consenso no Congresso.
O governo federal já sinalizou que deve apresentar um novo arcabouço fiscal ainda este ano, com regras mais rígidas para o controle de gastos. A proposta, no entanto, enfrenta resistência de setores que defendem a manutenção de investimentos em áreas como saúde e educação. A discussão promete ser acirrada nos próximos meses, com reflexos diretos na vida dos brasileiros.
Enquanto a solução não chega, a população sente os efeitos no dia a dia. Em Palmas, por exemplo, moradores relatam filas maiores em hospitais e escolas com menos recursos. No Tocantins, o governador Wanderlei Barbosa tem defendido a necessidade de um pacto federativo que ajude os estados a equilibrar suas finanças sem sacrificar serviços essenciais.
A pergunta que fica é: o Brasil conseguirá fechar as contas a tempo de evitar um colapso fiscal? A resposta depende não apenas de números, mas de escolhas políticas que definirão o futuro do país nos próximos anos.