Brasil pode perder avanço em IA por falta de energia e infra
Ex-executivo de big techs alerta em evento do BTG Pactual sobre riscos da lentidão em investimentos

O Brasil corre o risco de ficar para trás na corrida global pela inteligência artificial se não resolver dois gargalos urgentes: energia e infraestrutura. A advertência veio de Mat Velloso, ex-executivo da Microsoft, Google DeepMind e Meta, durante o Macro Day 2026, evento promovido pelo BTG Pactual na segunda-feira (31). Em sua fala, ele comparou o ritmo brasileiro ao de outras nações que já aceleram seus projetos de IA, destacando que a demora pode criar um abismo tecnológico difícil de superar.
Velloso não poupou críticas ao modelo atual. Segundo ele, o país ainda depende de soluções improvisadas para sustentar o desenvolvimento de IA, enquanto outras economias já estruturam redes elétricas estáveis e data centers preparados para a demanda crescente. "O Brasil tem potencial, mas sem energia confiável e sem uma malha de conectividade robusta, qualquer avanço será limitado", afirmou. A comparação não é exagerada: enquanto gigantes como Estados Unidos e China investem bilhões em infraestrutura dedicada à IA, o Brasil ainda debate a expansão de sua matriz energética e a modernização de suas redes.
O problema não é apenas técnico. A falta de planejamento afeta diretamente empresas e startups que tentam inovar no setor. Um exemplo citado por Velloso é o custo elevado da energia no Brasil, que pode inviabilizar projetos de médio e grande porte. Além disso, a instabilidade no fornecimento de eletricidade — agravada por crises hídricas recorrentes — coloca em xeque a viabilidade de operações que dependem de servidores e processamento de dados em nuvem. Para quem já atua no ramo, a situação é preocupante. "Sem previsibilidade, não há como escalar", resumiu um executivo do setor que participou do evento.
Os números reforçam o alerta. Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo global de eletricidade por data centers deve triplicar até 2030, impulsionado pela expansão da IA. No Brasil, a capacidade instalada de energia renovável cresceu nos últimos anos, mas ainda não acompanha a demanda projetada. Em 2025, o país registrou um déficit de 5% na oferta de energia em horários de pico, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). A situação é ainda mais crítica em regiões com infraestrutura defasada, onde a conexão à internet de alta velocidade é um privilégio.
A solução, na visão de Velloso, passa por três frentes: investimento público em energia limpa, parcerias com o setor privado para modernizar a malha elétrica e incentivos fiscais para atrair empresas de tecnologia. "Não adianta ter talento se não há condições básicas", disse. Ele lembrou que países como Índia e Vietnã já estão atraindo indústrias de IA com políticas agressivas de infraestrutura, enquanto o Brasil corre o risco de virar um mero consumidor de soluções estrangeiras.
O BTG Pactual, organizador do evento, não se pronunciou sobre os riscos levantados, mas o tema deve ganhar espaço na agenda econômica do país. Enquanto isso, startups e pesquisadores brasileiros já buscam alternativas, como a migração de projetos para nuvens internacionais ou a redução de custos com soluções locais. A pergunta que fica é: até quando o Brasil vai adiar a decisão de correr atrás do prejuízo?
A próxima edição do Macro Day está prevista para 2027, quando o debate sobre IA e infraestrutura deve ganhar ainda mais força. Até lá, a pressão sobre o governo e o setor privado só tende a aumentar.