Jacaré Joãozinho encanta pescadores em rio do oeste tocantinense
Interação inusitada com animal de 2,2 metros viralizou após pescador de Caseara chamar o réptil pelo nome

Um jacaré-açu de mais de dois metros de comprimento, conhecido como "Joãozinho", virou atração nas redes sociais depois que um jovem pescador o chamou pelo nome e o animal se aproximou da margem do rio em Caseara, no oeste do Tocantins. O vídeo, compartilhado pelo estudante Arthur Wieczorek, de 22 anos, mostra o réptil nadando calmamente até a beira d'água, enquanto o rapaz o cumprimenta como se fosse um velho conhecido. A cena, que durou cerca de um minuto, chamou a atenção por parecer uma amizade improvável entre homem e animal, mas a explicação é bem menos romântica.
Segundo a bióloga Barthira Rezende de Oliveira, o comportamento do jacaré não tem nada de especial. "Ele não está te cumprimentando, está esperando comida", afirmou a especialista, que trabalha com fauna silvestre na região. A pesquisadora explicou que animais como Joãozinho desenvolvem uma resposta condicionada quando associam a presença humana à oferta de peixes ou outros alimentos. "É um reflexo de sobrevivência, não de afeto", destacou. A prática, embora comum em algumas comunidades ribeirinhas, pode ser perigosa tanto para os animais quanto para as pessoas, já que jacarés acostumados a receber comida perdem o medo natural dos humanos e se tornam mais agressivos.
Para quem vive às margens dos rios do Tocantins, a cena não é exatamente novidade. Em cidades como Araguaçu, Gurupi e até mesmo em trechos do Rio Tocantins próximo a Palmas, moradores e pescadores já relataram encontros semelhantes com jacarés-açu. No entanto, a viralização do vídeo de Wieczorek reacendeu discussões sobre a relação entre humanos e animais silvestres na região. A Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Tocantins (Semarh) já havia alertado, em 2023, sobre os riscos de alimentar animais silvestres, especialmente em áreas turísticas e de lazer.
A bióloga Barthira, que atua em projetos de conservação no estado, lembra que o jacaré-açu é uma espécie nativa e protegida por lei no Tocantins. "Eles desempenham um papel importante nos ecossistemas aquáticos, controlando populações de peixes e mantendo o equilíbrio ambiental", explicou. No entanto, quando recebem comida de humanos, esses animais passam a frequentar áreas urbanas e podem se tornar um problema para a segurança pública. Em 2022, a Semarh registrou pelo menos três ocorrências de jacarés em bairros de Palmas, todas relacionadas à alimentação imprópria por moradores.
Para Arthur Wieczorek, a experiência foi inesquecível, mas ele garante que não repetirá o gesto. "Vi que ele veio porque achou que ia ganhar peixe, não porque queria brincar", contou o jovem, que mora em Araguaçu e costuma pescar no Rio Araguaia. A atitude, segundo ele, foi apenas uma brincadeira que acabou chamando a atenção de milhares de pessoas. A bióloga Barthira reforça que o ideal é manter distância e nunca oferecer alimentos a animais silvestres. "A natureza tem seus próprios ritmos, e a gente precisa respeitar isso", afirmou.
Enquanto o vídeo de Joãozinho continua circulando nas redes, a Semarh deve reforçar campanhas de conscientização nas cidades do oeste tocantinense. A ideia é alertar moradores e turistas sobre os perigos de alimentar animais silvestres, além de orientar sobre como agir em caso de encontros inesperados. Em Caseara, onde o vídeo foi gravado, a prefeitura já sinalizou que pode incluir o tema em palestras para pescadores e donos de barcos.
A história de Joãozinho, afinal, é um lembrete de que a convivência entre humanos e animais no Tocantins exige responsabilidade. Seja em um rio tranquilo do interior ou nas margens agitadas do Araguaia, o respeito à vida silvestre deve vir antes da curiosidade ou do desejo de uma foto diferente para as redes sociais.