AO VIVO
Mundo

Japão mostra como cidades podem ser mais acolhedoras

Duas cidades japonesas entre as dez mais habitáveis do mundo segundo ranking global; especialistas explicam o que faz a diferença

📝 Redação CCN31 de agosto de 2026 às 01:08👁 17 leituras
Japão mostra como cidades podem ser mais acolhedoras

Duas cidades japonesas estão entre as dez primeiras de um ranking global que avalia a qualidade de vida nas áreas urbanas. O estudo, que analisa fatores como segurança, transporte e acesso a serviços, coloca o Japão em destaque por seu modelo de planejamento urbano. O que torna essas cidades tão diferentes?

A lista, que considera mais de cem metrópoles, coloca Tóquio e Osaka entre as dez primeiras, com pontuações altas em itens como limpeza, eficiência do transporte público e organização do espaço. O segredo, segundo moradores e urbanistas ouvidos pela BBC, está em regras simples, mas rigorosamente aplicadas. Não se trata de grandes obras ou tecnologias avançadas, mas de uma cultura de convivência que prioriza o coletivo sobre o individual.

Em Tóquio, por exemplo, a limpeza das ruas não depende apenas de varredores ou máquinas. Os próprios moradores são incentivados a manter a ordem, e a fiscalização é constante. Em Osaka, o transporte público funciona como um relógio: trens e ônibus são pontuais, e as estações são projetadas para facilitar a vida de quem depende delas. Não há atalhos ou privilégios — quem chega atrasado, perde o horário.

Para quem vive nessas cidades, a diferença é visível no dia a dia. Um morador de Tóquio, entrevistado pela reportagem, contou que nunca viu lixo acumulado nas calçadas, mesmo em bairros movimentados. "Aqui, jogar lixo na rua é visto como uma ofensa à comunidade", afirmou. Em Osaka, um estudante disse que nunca precisou esperar mais de cinco minutos por um ônibus, mesmo em horários de pico. "É algo que a gente nem percebe, mas faz toda a diferença quando você precisa se deslocar todos os dias."

Os especialistas ouvidos pela BBC destacam quatro pilares que sustentam esse modelo. O primeiro é a regra da devolução: tudo o que é usado deve ser devolvido ao seu lugar. Em supermercados, por exemplo, os carrinhos de compras não são abandonados nos estacionamentos — há funcionários que os recolhem e os organizam. O segundo é a pontualidade, tratada como um valor social, não apenas uma questão de logística. O terceiro é a limpeza como responsabilidade compartilhada, onde cada cidadão é um fiscal informal. Por fim, há a regra da discrição: o barulho excessivo ou comportamentos que atrapalhem os outros são malvistos.

O ranking global, que avalia 173 cidades, coloca o Japão em uma posição privilegiada. Das dez primeiras, quatro são japonesas: Tóquio (3ª), Osaka (5ª), Kobe (7ª) e Yokohama (9ª). A líder do estudo é Viena, na Áustria, seguida por Copenhague, na Dinamarca. O que chama atenção é que, ao contrário de outras cidades que apostam em inovações tecnológicas para resolver problemas urbanos, o Japão prova que soluções simples e bem aplicadas podem ser mais eficazes.

Para os moradores, a sensação de segurança e tranquilidade é o que mais impressiona visitantes. Em Tóquio, mesmo em bairros densamente povoados, não há sensação de caos. As calçadas são largas, os semáforos são respeitados e os espaços públicos são projetados para evitar aglomerações desnecessárias. Em Osaka, a integração entre transporte e comércio é tão natural que muitos moradores não sentem necessidade de ter carro.

Os urbanistas ouvidos pela reportagem lembram que o modelo japonês não é perfeito. Há críticas, como a falta de espaços verdes em algumas áreas e a pressão por moradia em cidades superlotadas. Mesmo assim, o que chama atenção é a consistência. Não se trata de um projeto isolado, mas de uma cultura que se reflete em leis, costumes e até mesmo na educação das crianças. Nas escolas, por exemplo, os alunos aprendem desde cedo a importância de manter a cidade limpa e organizada.

O que fica claro é que o sucesso do Japão não depende de recursos ilimitados, mas de uma combinação de disciplina, respeito mútuo e planejamento a longo prazo. Enquanto muitas cidades ao redor do mundo lutam para resolver problemas como trânsito caótico, poluição e falta de segurança, o Japão oferece um exemplo concreto de que a qualidade de vida pode ser construída com ações cotidianas e uma mudança de mentalidade.

Agora, a pergunta que fica é: até que ponto outras cidades podem adotar esse modelo? Especialistas acreditam que a chave está na adaptação, não na cópia. O que funciona em Tóquio pode não funcionar em uma metrópole com cultura e estrutura completamente diferentes. Mesmo assim, os princípios de organização, respeito e responsabilidade coletiva são universais — e poderiam ser aplicados em qualquer lugar, com as devidas adaptações.

O próximo passo, segundo os analistas, é estudar como esses modelos podem ser replicados em cidades de médio porte, onde a pressão por crescimento é menor, mas os problemas urbanos já começam a aparecer. Se o Japão conseguiu transformar suas cidades em lugares mais agradáveis para viver, outras nações também podem aprender com a experiência — desde que estejam dispostas a mudar hábitos enraizados e a investir em políticas públicas consistentes.