Babaçu no Salão do Artesanato: quebradeiras do Tocantins brilham em Brasília
Artesã de Tocantinópolis expõe peça de babaçu no 17º Salão do Artesanato, em Brasília, destacando cultura local

No coração de Brasília, uma artesã do Tocantins mostrou ao país o que as quebradeiras de coco babaçu já sabem há gerações: a força de um ofício que vai muito além do sustento. Maria da Conceição Silva, moradora de Tocantinópolis, levou até o 17º Salão do Artesanato uma peça feita com fibra de babaçu, um material que carrega história, resistência e identidade. A exposição, que reuniu trabalhos de todo o Brasil, não foi apenas uma vitrine de produtos, mas um reconhecimento público do papel dessas mulheres na cultura tocantinense.
O babaçu não é só uma palmeira comum no cerrado tocantinense. Para centenas de famílias, especialmente aquelas que vivem nas regiões Norte e Nordeste do estado, a quebra do coco é uma atividade que sustenta lares, preserva tradições e movimenta a economia local. Em Tocantinópolis, cidade conhecida pela forte presença de quebradeiras, o ofício é passado de mãe para filha, como um legado que não pode se perder. A peça exposta por Maria da Conceição, feita com fibra trançada e tingida naturalmente, chamou a atenção justamente por mostrar como o material, antes visto como simples, pode se transformar em arte de valor cultural e comercial.
O Salão do Artesanato, realizado anualmente pelo Ministério da Cultura, é um dos principais espaços para valorizar o trabalho manual brasileiro. Neste ano, o Tocantins levou não só Maria da Conceição, mas também outros artesãos que representam a diversidade do estado. A participação no evento não é apenas uma oportunidade de venda, mas uma chance de mostrar ao Brasil que o Tocantins tem muito mais a oferecer do que apenas belezas naturais. Para as quebradeiras, a exposição em Brasília é um passo importante para garantir visibilidade e, quem sabe, abrir portas para novos mercados.
A fibra de babaçu já é usada há décadas pelas quebradeiras para fazer cestos, peneiras, tapetes e até mesmo brinquedos. O processo de extração e transformação do material é trabalhoso: primeiro, o coco é quebrado com um facão ou pedra; depois, a fibra é separada e lavada; por fim, é seca ao sol e tingida com cores naturais, como o urucum ou a casca de jenipapo. Cada peça carregada por Maria da Conceição até Brasília levou dias para ficar pronta, mas o resultado foi um trabalho que uniu técnica ancestral e criatividade moderna.
Para o Tocantins, o reconhecimento do babaçu como matéria-prima artesanal pode significar mais do que prestígio. A atividade já movimenta pequenas cooperativas em cidades como Araguatins, Augustinópolis e Xambioá, onde grupos de mulheres se organizam para vender seus produtos em feiras e lojas de artesanato. Com a exposição em Brasília, a expectativa é que novos compradores e encomendas cheguem, fortalecendo não só a renda dessas famílias, mas também a preservação de uma cultura que está ameaçada pelo avanço do agronegócio e pela falta de políticas públicas específicas.
O Governo do Tocantins, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo, tem apoiado iniciativas como a de Maria da Conceição. Em 2023, o estado investiu em cursos de capacitação para quebradeiras, ensinando técnicas de tingimento, modelagem e comercialização. A ideia é que o artesanato com babaçu não fique restrito a feiras locais, mas conquiste espaço em lojas de decoração, hotéis e até mesmo no mercado internacional. "O babaçu é nossa riqueza, mas precisamos mostrar ao mundo que ele pode ser muito mais do que um simples coco", afirmou a secretária de Cultura, Célia Ribeiro, durante a abertura do Salão do Artesanato.
Para as quebradeiras, a exposição em Brasília é apenas o começo. Em Tocantinópolis, um grupo de mulheres já planeja criar uma cooperativa para vender os produtos online, ampliando o alcance além das fronteiras do estado. A meta é que, em dois anos, o artesanato com babaçu seja reconhecido como um selo de qualidade do Tocantins, assim como o artesanato em cerâmica de Peixe ou as rendas de Monte do Carmo. Enquanto isso, Maria da Conceição volta para casa com a certeza de que o esforço valeu a pena: "Levei um pedaço do Tocantins para Brasília, e agora o Tocantins vai levar um pedaço de mim para o Brasil", disse ela, emocionada, ao final da exposição.
A próxima edição do Salão do Artesanato já tem data marcada: será em agosto de 2025. Até lá, o Tocantins deve preparar uma delegação ainda maior, com mais artesãos e peças que representem a diversidade do estado. Enquanto isso, nas quebradeiras de coco babaçu, a rotina continua: o facão corta o coco, a fibra é trançada com cuidado, e a história do Tocantins segue sendo tecida, palha por palha.