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Inglês critica a relação do Brasil com a seleção: orgulho que vira frustração

Tim Vickery, comentarista britânico radicado no Brasil desde 1994, analisa como a memória das glórias passadas molda a paixão — e as cobranças — dos torcedores

📝 Redação CCN05 de julho de 2026 às 10:22👁 9 leituras
Inglês critica a relação do Brasil com a seleção: orgulho que vira frustração

O Brasil vive uma contradição que vai além dos gramados: o orgulho de ser pentacampeão se mistura a uma cobrança que beira o insuportável. Essa é a avaliação do jornalista inglês Tim Vickery, especializado em futebol sul-americano e morador do país há três décadas. Para ele, a herança das conquistas entre 1958 e 1970 — quando o mundo assistiu ao nascimento de ídolos como Pelé e Jairzinho — ainda define como os brasileiros enxergam a seleção nacional. Não é apenas paixão, é uma expectativa que, quando não atendida, transforma a torcida em juíza implacável.

A relação do brasileiro com a camisa amarela é única no mundo. Enquanto outras nações comemoram títulos e comemoram a participação, aqui a cobrança é por vitória, e ponto final. Vickery, que acompanha o futebol brasileiro de perto desde os anos 1990, lembra que essa cultura não é nova. Nas décadas de ouro, quando o Brasil levantou três Copas do Mundo em doze anos, o país inteiro parou para celebrar. Mas também criou uma geração que cresceu acreditando que o título era um direito, não um objetivo. Quando a seleção não cumpre essa promessa, a decepção não é só esportiva — é emocional. "O brasileiro não aceita perder. Não é uma questão de técnica, é de identidade", afirmou o comentarista em recente entrevista.

A frustração não é privilégio dos torcedores. Jogadores, técnicos e até dirigentes sentem o peso dessa cobrança. Nos últimos anos, o Brasil colecionou eliminações precoces em Copas do Mundo e Copas América, mas o que mais dói não é o resultado em si, e sim a forma como a sociedade reage. Nas redes sociais, a raiva explode em minutos. Nas ruas, a discussão se prolonga por dias. Até mesmo em Palmas, onde o futebol não é o esporte mais popular, a paixão pela seleção é tema de conversas nos bares e nas redes. Afinal, o Brasil não é só o país do Carnaval e do samba — é o país do futebol, e a seleção carrega essa responsabilidade como nenhuma outra seleção no mundo.

Tim Vickery não é o primeiro a notar essa dinâmica. Outros observadores estrangeiros já destacaram como o Brasil trata o futebol como uma extensão da cultura nacional. Mas o que chama atenção na análise dele é a conexão entre passado e presente. As vitórias de 1958, 1962 e 1970 não são apenas recordes — são a base de uma crença que, mesmo com o tempo, não se apagou. "O brasileiro não esquece, e não perdoa quando a seleção não entrega", disse Vickery. Essa memória coletiva explica por que, mesmo após 24 anos sem levantar a taça, a esperança nunca se esgota completamente. A cada quatro anos, a nação volta a sonhar, mesmo sabendo que o caminho é tortuoso.

Para quem vive no Tocantins, a discussão não é distante. Em Palmas, por exemplo, a paixão pelo futebol se mistura a outras paixões regionais, mas a seleção nacional sempre tem espaço garantido. Nas vésperas de Copas do Mundo, as lojas se enchem de camisas, os bares ficam lotados e as conversas nas mesas de boteco ganham um tom especial. Não é só esporte — é identidade. E quando a seleção decepciona, a frustração é coletiva. Não importa se o time jogou bem ou mal: o que vale é o resultado. Essa lógica, segundo Vickery, é o que diferencia o Brasil de outras potências futebolísticas. Na Alemanha, na Itália ou na Argentina, a derrota dói, mas não destrói. Aqui, ela pode abalar a autoestima de uma nação inteira.

O que vem pela frente? A próxima Copa do Mundo está a menos de dois anos, e a pressão só aumenta. A CBF sabe que não pode errar na preparação, mas também sabe que, no Brasil, o erro não é uma opção. Enquanto isso, os torcedores seguem divididos: alguns pedem paciência, outros exigem mudanças radicais. Uma coisa é certa: a relação do Brasil com a seleção não vai mudar tão cedo. Afinal, como diz Vickery, "o futebol brasileiro não é só um esporte — é uma religião". E as religiões, quando decepcionam seus fiéis, não perdoam facilmente.