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Aposentado vê pousada ser derrubada às margens do Lago de Palmas

Demolição de 50 chácaras no reservatório da UHE Lajeado começou nesta terça-feira (18) com apoio da PM e PF

📝 Redação CCN20 de agosto de 2026 às 10:52👁 2 leituras
Aposentado vê pousada ser derrubada às margens do Lago de Palmas

Aloízio Mota, 85 anos, não conseguiu conter as lágrimas ao assistir à demolição da pousada que ele mesmo construiu há mais de duas décadas às margens do Lago de Palmas. A estrutura, erguida no reservatório da Usina Hidrelétrica Luís Eduardo Magalhães (UHE Lajeado), foi derrubada na manhã desta terça-feira (18) por determinação da Justiça Federal. O aposentado, que morava no local, disse sentir-se "impotente" diante da cena, enquanto a máquina triturava paredes e telhados que abrigaram anos de memórias.

A operação de desocupação forçada começou cedo e envolveu agentes da Polícia Militar e da Polícia Federal, que garantiram o cumprimento da decisão judicial. Segundo informações do processo, pelo menos 50 chácaras foram afetadas ao longo do reservatório, que corta a região metropolitana de Palmas. A Justiça determinou a remoção das construções após anos de disputas judiciais sobre a regularização fundiária na área, que é de domínio da União. A UHE Lajeado, inaugurada em 2002, alagou uma extensa faixa de terras antes ocupadas por comunidades ribeirinhas e pequenos produtores, muitos dos quais nunca receberam indenizações ou reassentamentos adequados.

Para Aloízio, a demolição não representa apenas a perda de um imóvel, mas o fim de um ciclo. "Eu construí aquele lugar com as minhas mãos, plantei árvores, recebi amigos e familiares por anos. Agora, não sobrou nada", contou, com a voz embargada. A pousada, que funcionava como um ponto de encontro para pescadores e turistas, era uma das poucas estruturas ainda de pé na região, mesmo após décadas de incertezas sobre a posse da terra. Moradores da área relatam que a fiscalização sobre ocupações irregulares no lago tem se intensificado nos últimos meses, com notificações e autuações frequentes.

A decisão judicial que levou à demolição não é recente. Processos sobre a regularização das áreas alagadas pela usina começaram ainda na década de 2000, mas a lentidão da burocracia e os recursos apresentados pelos proprietários adiaram por anos a efetivação das medidas. Agora, com a retomada das ações, dezenas de famílias se veem obrigadas a deixar para trás não apenas suas casas, mas também atividades econômicas que dependiam do lago, como a pesca artesanal e o turismo de fim de semana. Em Palmas, onde o turismo é um dos pilares da economia local, a notícia reacende debates sobre o uso do reservatório e a falta de políticas públicas para os atingidos por barragens.

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) informou que a demolição faz parte de um plano de regularização ambiental, mas não detalhou se há previsão de indenização ou reassentamento para os moradores removidos. A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), que administra a UHE Lajeado, não se pronunciou sobre o caso até o fechamento desta edição. Enquanto isso, Aloízio e outros donos de chácaras afetados aguardam orientações sobre o que será feito com os terrenos, que agora estão interditados.

O caso coloca em evidência uma questão recorrente no Tocantins: a falta de soluções definitivas para quem vive às margens de reservatórios de usinas hidrelétricas. Em 2019, uma reportagem da Capital da Notícia mostrou que centenas de famílias ainda aguardavam por indenizações após a construção da UHE Estreito, no sul do estado. Agora, a mesma história se repete no Lago de Palmas, onde o tempo parece correr contra aqueles que dependem da água para sobreviver.

A Justiça Federal já havia determinado prazos para a desocupação, mas a resistência de alguns proprietários e a morosidade dos trâmites judiciais adiaram a execução. Com a operação desta terça-feira, o governo federal e as polícias reforçam que não há mais margem para adiamentos. Para os moradores, no entanto, a sensação é de abandono. "Eles falam em regularização, mas ninguém nos ofereceu alternativa. Só tiraram o que a gente tinha", desabafou Aloízio, enquanto observava o entulho ser removido por caminhões.

A prefeitura de Palmas, por meio da Secretaria de Planejamento Urbano, afirmou que não tem ingerência sobre as áreas alagadas, que são de responsabilidade federal. A pasta destacou que, em casos de ocupações irregulares, a fiscalização é compartilhada com órgãos ambientais, mas não há previsão de ações emergenciais para os atingidos pela demolição. Enquanto isso, Aloízio e outros moradores se preparam para o que vem pela frente: a incerteza de um futuro sem o lago que, por décadas, foi o cenário de suas vidas.

A Justiça Federal ainda não divulgou um cronograma para a remoção das demais chácaras afetadas. O que se sabe é que, enquanto as máquinas não param, as famílias removidas terão que buscar alternativas em um mercado imobiliário cada vez mais restritivo em Palmas, onde os preços dos terrenos próximos ao lago já beiram valores inacessíveis para a maioria.