Agro prefere parceria com EUA mesmo vendendo para a China
Pesquisa inédita na fronteira agrícola mostra que dependência comercial não define alinhamento político dos produtores
A fronteira agrícola do Brasil, que inclui municípios tocantinenses como Pedro Afonso e Tupirama, revela uma contradição que afeta diretamente a economia local: os produtores rurais confiam mais nos Estados Unidos do que na China para parcerias estratégicas, mesmo sendo a China o principal destino de 80% da soja brasileira. A constatação vem de uma pesquisa inédita de opinião pública feita na região, que expõe como a dependência econômica não se traduz automaticamente em alinhamento político ou comercial.
Os números mostram que, enquanto o Brasil exporta cerca de 80% de sua soja para a China — um mercado que movimenta bilhões e sustenta a balança comercial de estados como o Tocantins —, os produtores daqui olham com mais otimismo para os Estados Unidos quando o assunto é confiança em acordos e parcerias. A pesquisa, realizada em cidades como Lucas do Rio Verde (MT) e Sorriso (MT), mas com reflexos diretos em áreas produtoras do Tocantins, indica que 62% dos entrevistados preferem negociar com empresas ou governos norte-americanos, enquanto apenas 28% confiam na China para além das transações comerciais.
O contraste chama atenção porque, no dia a dia dos agricultores tocantinenses, a China não é apenas um comprador, mas um parceiro indispensável. Em 2023, o Tocantins exportou mais de US$ 1,2 bilhão em grãos, sendo a soja responsável por 70% desse valor, segundo dados da Secretaria de Estado da Agricultura. Em Pedro Afonso, um dos principais polos de produção de soja do estado, a safra 2023/2024 deve ultrapassar 1,5 milhão de toneladas, boa parte destinada ao mercado chinês. Mesmo assim, a desconfiança em relação ao país asiático persiste, especialmente quando o tema é segurança jurídica e estabilidade em contratos de longo prazo.
"A gente vende para a China porque não tem outra opção no curto prazo, mas não confia que eles vão manter os acordos no futuro", afirmou um produtor de soja de Tupirama, que pediu para não ser identificado. Ele citou casos recentes de barreiras comerciais impostas pelo governo chinês a produtos brasileiros, como a suspensão temporária de compras de carne suína em 2021, que afetou diretamente os produtores do Tocantins. "Já tivemos prejuízos por causa de decisões unilaterais deles. Nos EUA, pelo menos a gente sabe que tem regras mais previsíveis", completou.
A pesquisa também revelou que 70% dos entrevistados acreditam que os Estados Unidos oferecem mais garantias em acordos de cooperação agrícola, como financiamentos e tecnologias, enquanto 55% veem a China como um parceiro instável. Entre os motivos citados estão a burocracia excessiva, a falta de transparência em licitações e a incerteza sobre a manutenção de políticas de importação.
Para o economista da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (Faet), João Carlos Oliveira, o resultado reflete uma realidade que vai além dos números. "O produtor brasileiro, e especialmente o tocantinense, vive uma dualidade: precisa do mercado chinês para sobreviver, mas não vê nele um parceiro confiável para investimentos de longo prazo", analisa. Oliveira lembra que, nos últimos cinco anos, o Tocantins aumentou em 40% sua área plantada de soja, mas boa parte desse crescimento foi financiada com recursos públicos e privados brasileiros, não chineses.
A dependência da China não é exclusividade do Tocantins. No Brasil, a soja representa 50% das exportações do agronegócio, e a China é responsável por 75% desse volume. No entanto, a pesquisa mostra que, na prática, os produtores não querem depender apenas de um único mercado. "A gente não pode colocar todos os ovos na mesma cesta", disse outro produtor, desta vez de Porto Nacional, município que também tem forte presença no cultivo de grãos. "Se a China fechar as portas amanhã, a gente quebra. Por isso, a gente busca diversificar, mesmo que seja com parceiros menos rentáveis no curto prazo."
O governo do Tocantins, por meio da Secretaria de Estado da Agricultura, tem buscado alternativas para reduzir essa dependência. Em 2023, foi lançado o programa "Soja do Tocantins: Diversificação de Mercados", que já levou missões comerciais para países como Índia, Irã e países do Oriente Médio. Até agora, no entanto, os resultados são tímidos: apenas 5% da soja tocantinense tem como destino outros mercados além da China e da União Europeia.
A pesquisa, conduzida pela consultoria AgroInteligência, ouviu 300 produtores em sete estados da fronteira agrícola, incluindo o Tocantins. Os dados serão apresentados em um seminário em Brasília no próximo mês, com a presença de representantes do Ministério da Agricultura e de entidades do setor. Enquanto isso, no campo, a realidade segue a mesma: vender para a China é inevitável, mas confiar nela, não.
O que os números mostram é que, para os produtores tocantinenses, a confiança em um parceiro comercial não se mede apenas pelo volume de negócios, mas pela segurança que ele oferece. E, nesse quesito, os Estados Unidos ainda levam vantagem — mesmo que a China continue sendo a principal compradora.