Mais de 20 mil acidentes de trabalho no TO em nove anos
Levantamento mostra alta em registros entre 2015 e 2024; Palmas lidera casos entre as cidades tocantinenses

Mais de 20 mil acidentes de trabalho foram registrados no Tocantins entre 2015 e 2024. O número, que supera a marca histórica, coloca o estado em alerta sobre as condições de segurança nos ambientes laborais. Palmas, a capital, aparece no topo da lista de municípios com maior incidência, segundo dados oficiais.
A quantidade de ocorrências chama atenção não só pelo volume, mas pela frequência com que trabalhadores do Tocantins se deparam com situações de risco no dia a dia. Em nove anos, foram 20.076 registros, número que reflete a realidade de quem depende de empregos formais ou informais para sobreviver. A Secretaria de Estado do Trabalho e Assistência Social (Setas) e o Corpo de Bombeiros Militar do Tocantins (CBMTO) são responsáveis pelo monitoramento desses casos, mas a alta persistente indica que as medidas preventivas ainda não atingiram todos os setores.
Em Palmas, a situação é ainda mais preocupante. A capital, que concentra a maior parte das empresas e indústrias do estado, registrou 3.200 acidentes nos últimos nove anos. O número representa quase 16% do total estadual, segundo o levantamento. O CBMTO, que atua em ocorrências de resgate e fiscalização, aponta que muitos desses casos poderiam ser evitados com treinamentos adequados e equipamentos de proteção individual (EPIs) em dia. Em 2023, por exemplo, a cidade registrou 450 acidentes, um aumento de 12% em relação ao ano anterior.
Os setores mais afetados incluem construção civil, agricultura e transporte, áreas que empregam milhares de tocantinenses. Na zona rural, especialmente em municípios como Gurupi e Porto Nacional, os acidentes muitas vezes estão ligados ao uso de máquinas agrícolas sem manutenção ou à falta de orientação sobre segurança no manuseio de ferramentas. Nas cidades maiores, como Araguaína e Miracema do Tocantins, os registros se concentram em obras civis e serviços pesados.
Para a coordenadora de Saúde do Trabalhador da Setas, Maria Aparecida Silva, a alta incidência reflete um problema estrutural. "Muitas empresas ainda tratam a segurança como um custo, não como uma prioridade. Quando um acidente acontece, a vida de uma família muda para sempre", afirmou. Ela destacou que o estado tem investido em campanhas de conscientização, mas reconheceu que o desafio é grande, especialmente em setores informais, onde a fiscalização é mais difícil.
Os números mostram que, em 2020, o Tocantins registrou 1.800 acidentes, o menor índice da década. No entanto, a partir de 2021, os casos voltaram a subir, chegando a 2.300 em 2022 e 2.450 em 2023. O CBMTO informou que, em 2024, até junho, já haviam sido registrados 1.200 acidentes, o que projeta um ano pior do que o anterior. A corporação reforça que muitos casos não são notificados, o que pode esconder a real dimensão do problema.
A falta de fiscalização constante e a demora em aplicar multas a empresas que descumprem normas de segurança são apontadas como fatores que agravam a situação. Em Palmas, a Gerência de Vigilância Sanitária e Saúde do Trabalhador da Secretaria Municipal de Saúde (Semus) realiza vistorias, mas o número de fiscais é insuficiente para cobrir todas as demandas. Em 2023, apenas 15% das empresas fiscalizadas receberam autuações por irregularidades.
Para os trabalhadores, o impacto vai além das lesões físicas. Muitos ficam afastados por meses, perdendo renda e enfrentando dificuldades para se recolocar no mercado. Em casos graves, a invalidez permanente impede que retornem ao trabalho, gerando um ciclo de vulnerabilidade social. "Quando um acidente acontece, a família toda sofre. Além do prejuízo financeiro, há o emocional", contou João Silva, pedreiro que sofreu um acidente em uma obra em Palmas há dois anos e ainda sente as sequelas.
O governo estadual anunciou recentemente a criação de um programa de prevenção, com foco em treinamentos e parcerias com sindicatos. A Setas também planeja ampliar o número de fiscais e intensificar as fiscalizações em setores de alto risco. No entanto, a implementação dessas medidas ainda depende de recursos e da vontade política, o que nem sempre é garantido.
Enquanto isso, trabalhadores continuam expostos a riscos diários. Em Gurupi, por exemplo, a associação de trabalhadores rurais cobra mais atenção do poder público para a segurança no campo. "A gente vê colegas perdendo dedos, braços, e ninguém faz nada. É preciso agir antes que o acidente aconteça", cobrou o líder comunitário Antônio Costa.
O CBMTO mantém uma campanha permanente de orientação, com palestras em empresas e comunidades. No entanto, a efetividade dessas ações ainda é limitada pela falta de adesão de muitos empregadores. A corporação também alerta para o aumento de acidentes em setores como mineração e transporte de cargas, áreas que têm crescido no Tocantins nos últimos anos.
A realidade tocantinense reflete um problema nacional, mas no estado a situação é agravada pela informalidade e pela falta de políticas públicas mais incisivas. Enquanto o número de acidentes não parar de subir, milhares de famílias seguem à mercê de um sistema que, muitas vezes, prioriza o lucro em detrimento da vida.
A próxima fiscalização do CBMTO está prevista para agosto, com foco em obras e indústrias de Palmas e Araguaína. A expectativa é que, com mais pressão, as empresas passem a investir em segurança. Mas, até lá, o risco continua rondando os trabalhadores do Tocantins.