Motoboys em Palmas enfrentam alta de 30% em acidentes no trânsito
Número de ocorrências com entregadores cresceu de 950 em 2020 para 1.250 em 2023 na capital

Em menos de três anos, a vida dos motoboys em Palmas virou um verdadeiro desafio diário. O que antes já era uma rotina de pressa e riscos, agora se tornou ainda mais perigoso: o número de acidentes envolvendo entregadores subiu 30% desde 2020. Em 2023, a Polícia Militar anotou 1.250 ocorrências com motofretistas na capital — contra 950 registradas três anos atrás. Colisões, quedas e atropelamentos, muitos deles com vítimas graves, passaram a fazer parte do cotidiano de quem depende das entregas para sobreviver.
O aumento não veio sozinho. Ele chegou junto com a explosão da demanda por serviços de entrega durante e depois da pandemia, quando lojas virtuais e aplicativos passaram a exigir prazos cada vez mais apertados. Enquanto as empresas cobram agilidade, os motoboys enfrentam jornadas exaustivas, equipamentos inadequados e, em muitos casos, a falta de fiscalização sobre as condições de trabalho. No Centro de Palmas, onde o fluxo de veículos é intenso e os cruzamentos são constantes, os riscos se multiplicam. "A gente corre contra o tempo, mas o tempo não corre com a gente", desabafa um entregador que atua na região há quatro anos e pediu para não ser identificado. Ele já sofreu três acidentes em menos de dois anos, dois deles com fraturas.
A pressão por produtividade virou uma armadilha. Empresas de aplicativos e lojas virtuais impõem metas que, na prática, obrigam os motoboys a ignorar limites básicos de segurança. Sem fiscalização efetiva sobre o uso de equipamentos ou a carga horária, muitos acabam rodando horas a fio, com fome, cansaço e, às vezes, até mesmo sem capacete adequado. Os números da PM mostram que o problema não é passageiro: em 2020, foram 950 ocorrências; em 2021, 1.100; em 2022, 1.200; e no ano passado, 1.250. A escalada preocupa não só os profissionais, mas também quem depende deles para receber compras, remédios ou refeições em casa.
Os bairros mais críticos são aqueles com maior movimento, como o Centro, onde o trânsito caótico e a pressa dos motoristas aumentam as chances de acidentes. Mas o problema não se limita a uma região. Em toda a cidade, a combinação de prazos apertados, falta de fiscalização e condições precárias de trabalho transformou o trabalho dos motoboys em uma loteria perigosa. "Já vi colegas desmaiando de cansaço na moto ou dormindo no meio da rua porque não aguentavam mais", conta outro entregador, que também pediu anonimato. Para ele, a solução não depende só de fiscalização, mas de uma mudança na cultura das empresas, que muitas vezes tratam os motoboys como peças descartáveis.
A Polícia Militar confirmou os dados e alerta para a necessidade de mais fiscalização, não só sobre o trânsito, mas também sobre as condições de trabalho dos profissionais. Enquanto isso, os motoboys seguem pedalando entre o perigo e a necessidade, tentando equilibrar a sobrevivência com a segurança. O que antes era um serviço rápido e eficiente, agora virou um teste de resistência — e muitos não estão aguentando.
A reportagem tentou contato com algumas empresas de aplicativos e lojas virtuais que atuam em Palmas, mas até o fechamento desta matéria, não obteve resposta sobre as medidas adotadas para reduzir os riscos aos entregadores. A Secretaria Municipal de Trânsito de Palmas também foi procurada, mas não se manifestou até o momento.
Enquanto as autoridades não agem, os motoboys continuam a pagar o preço. E a cidade, que depende cada vez mais das entregas, segue com um problema que não pode mais ser ignorado.