Voto em Antinha de Baixo une gerações na urna
Joaquim, 87 anos, e neta Thauany, 16, votam juntos em Santo Antônio do Descoberto (GO) no dia 4 de outubro

No próximo dia 4 de outubro, a comunidade quilombola de Antinha de Baixo, em Santo Antônio do Descoberto (GO), viverá um momento histórico. Joaquim Moreira, 87 anos, agricultor e morador da região há décadas, prepara-se para exercer seu direito ao voto. Ao seu lado, Thauany Silva, 16 anos, sua neta, viverá pela primeira vez a experiência de votar. O par de gerações simboliza não apenas a continuidade do engajamento político, mas também a transmissão de valores entre os mais velhos e os jovens nas comunidades quilombolas.
A data marca o primeiro turno das eleições municipais, e para Joaquim, o voto é mais do que um direito: é um compromisso herdado. "Desde que me entendo por gente, meu pai já me falava sobre a importância de votar. Ele dizia que era a única forma de garantir que as coisas mudassem para melhor", conta o agricultor, que lembra de eleições passadas em que precisou percorrer longas distâncias para chegar à urna. A mobilidade sempre foi um desafio para os moradores de Antinha de Baixo, mas a chegada das urnas eletrônicas e a ampliação das seções eleitorais facilitaram o acesso. Mesmo assim, a logística ainda exige organização, especialmente para quem, como Joaquim, depende da agricultura para sobreviver.
Thauany, por sua vez, representa a nova geração que chega ao processo eleitoral com uma perspectiva diferente. A adolescente, que acompanha o avô pela primeira vez, vê no voto uma ferramenta de transformação. "Meu pai sempre me ensinou que a gente tem que escolher pessoas que vão cuidar da gente, da saúde, da escola. Não é só marcar um X, é pensar no futuro", diz ela, enquanto folheia o título de eleitor pela primeira vez. A presença de jovens como Thauany nas seções eleitorais é um sinal de que as comunidades quilombolas estão se apropriando cada vez mais da política como espaço de luta por direitos.
A participação de comunidades quilombolas nas eleições é um tema que ganha relevância a cada ano. Em Santo Antônio do Descoberto, a presença de moradores de Antinha de Baixo nas urnas reflete não apenas a conscientização política, mas também a organização interna dessas comunidades. Historicamente marginalizadas, as populações quilombolas têm buscado garantir que suas demandas — como acesso à terra, saúde e educação — sejam ouvidas nas esferas de poder. O voto, nesse contexto, é uma forma de pressionar por políticas públicas que atendam às especificidades dessas regiões.
Para Joaquim, a escolha dos candidatos é feita com base em promessas concretas. "A gente não vota em qualquer um. Tem que ver quem vai ajudar a gente com o transporte, com a saúde, com a escola das crianças", afirma. A saúde, aliás, é um dos principais pontos de atenção para os moradores de Antinha de Baixo. A distância dos postos de saúde e a falta de médicos especializados são reclamações recorrentes. Nas eleições, a população quilombola busca candidatos que se comprometam a levar serviços básicos até as comunidades.
A mobilização em Antinha de Baixo não é isolada. Em todo o Tocantins, as comunidades quilombolas têm se organizado para garantir que seus direitos sejam respeitados. Em 2020, por exemplo, a Fundação Cultural Palmares reconheceu oficialmente várias comunidades no estado, o que abriu caminho para políticas de inclusão. No entanto, ainda há muito a ser feito. A regularização fundiária, por exemplo, é um processo lento e burocrático, que afeta diretamente a vida dos quilombolas.
A presença de Thauany na urna também chama atenção para a importância da educação política desde cedo. Em muitas famílias quilombolas, os jovens são incentivados a participar de discussões sobre o futuro da comunidade. "A gente conversa muito em casa sobre política. Meu pai diz que a gente não pode deixar que outros decidam por nós", conta a adolescente. Essa conscientização é fundamental para que as próximas gerações não se afastem do processo eleitoral.
O dia 4 de outubro será, para Joaquim e Thauany, mais do que a escolha de prefeitos e vereadores. Será a reafirmação de que o voto é uma ferramenta de resistência e de construção de um futuro melhor. Para as comunidades quilombolas, a urna é um símbolo de luta por direitos que, muitas vezes, lhes foram negados ao longo da história. E, nesse contexto, a presença de duas gerações votando juntas é um recado claro: a política não pode ser deixada nas mãos de poucos.
A Justiça Eleitoral de Goiás já anunciou que irá reforçar a logística nas seções eleitorais de Santo Antônio do Descoberto, garantindo que todos os eleitores possam votar sem dificuldades. Para Joaquim, no entanto, o mais importante não é a estrutura, mas a certeza de que seu voto fará diferença. "A gente sabe que um voto sozinho não muda tudo, mas a gente tem que fazer a nossa parte", diz. Thauany, ao lado do avô, concorda: "É assim que a gente começa a mudar as coisas".
Enquanto o Brasil se prepara para mais um pleito, as comunidades quilombolas mostram que a democracia também se constrói nas pequenas localidades, onde cada voto conta. Em Antinha de Baixo, a urna será mais uma vez o palco de uma história de resistência e esperança.