Empresários de Palmas ainda confundem dinheiro da empresa com o pessoal
Pesquisa mostra que 60% dos empreendedores da capital misturam contas pessoais e do negócio; prática pode atrapalhar o crescimento

Mais da metade dos donos de pequenos negócios em Palmas ainda não separa as finanças da empresa das contas pessoais. Levantamento feito com empreendedores da capital revela que seis em cada dez misturam os dois tipos de gastos, seja pagando despesas da empresa com o dinheiro da conta particular ou usando o caixa do negócio para cobrir contas domésticas.
O problema não é exclusivo de quem está começando. Empresários com anos de mercado também caem na mesma armadilha, segundo relatos de contadores que atendem clientes em diversos bairros da cidade. A confusão entre os recursos pode gerar prejuízos invisíveis no início, mas que se acumulam até atrapalhar o fluxo de caixa e até inviabilizar a continuidade da empresa.
Em bairros como o Centro, onde há uma concentração maior de lojas e prestadores de serviços, a situação é mais comum do que se imagina. Um dono de padaria na região, que pediu para não ser identificado, confessou que já usou o dinheiro das vendas do dia para pagar a mensalidade da escola do filho. "No começo, parece que não tem problema, mas quando o negócio cresce, a gente percebe que perdeu o controle", contou ele, que agora tenta reorganizar as contas com ajuda de um contador.
A prática é mais frequente entre micro e pequenos empresários, mas não poupa nem quem tem CNPJ há mais tempo. Segundo dados de uma pesquisa recente, 60% dos empreendedores admitem misturar as contas, enquanto outros 25% dizem fazer isso eventualmente. Apenas 15% afirmam separar completamente as finanças pessoais das empresariais.
O erro mais comum é usar o cartão ou a conta corrente da pessoa física para pagar fornecedores, aluguel ou até mesmo a folha de pagamento. Do outro lado, muitos também retiram dinheiro do caixa da empresa para pagar contas como luz, internet ou até mesmo a prestação do carro. "É uma cultura que precisa mudar, porque a falta de controle financeiro é uma das principais causas de fechamento de empresas nos primeiros anos", alerta um contador que atende clientes em diversos pontos de Palmas.
Para quem está começando, a tentação é ainda maior. Com pouco capital de giro e despesas fixas altas, muitos empreendedores acabam recorrendo ao dinheiro da empresa para cobrir gastos pessoais, acreditando que vão repor depois. O problema é que, na maioria das vezes, a reposição não acontece, e a empresa começa a operar no vermelho sem que o dono perceba.
A Receita Federal do Tocantins já alertou em palestras sobre a importância da separação das contas, mas muitos empresários ainda não levam o assunto a sério. "A gente vê casos em que o dono da empresa paga a conta do cartão de crédito pessoal com o dinheiro do negócio, e isso distorce completamente o balanço", explica um servidor da Receita que participou de ações de orientação em feiras de negócios na capital.
A confusão entre as finanças não afeta só o bolso do empreendedor. Quando chega a época de declarar imposto de renda ou apresentar balanços para bancos, a falta de organização pode gerar multas ou até mesmo a recusa de crédito. Em Palmas, onde o número de micro e pequenas empresas representa mais de 90% do total de negócios, o problema ganha dimensão maior.
O Sebrae Tocantins tem oferecido cursos e consultorias para ajudar os empresários a organizar as finanças, mas a adesão ainda é baixa. "Muitos só procuram ajuda quando já estão com problemas graves, como dívidas ou dificuldade para pagar fornecedores", diz um consultor do órgão. A orientação é clara: abrir uma conta bancária exclusiva para a empresa e usar apenas recursos próprios para gastos pessoais.
Enquanto isso, na Praça dos Girassóis, um camelô que vende roupas usadas conta que já perdeu duas barracas por causa de dívidas acumuladas pela mistura de contas. "Eu achava que dava para controlar, mas quando vi, já estava devendo para todo mundo", desabafou. Agora, ele tenta se reerguer, mas sabe que o caminho será longo.
A solução, segundo especialistas, começa com a mudança de mentalidade. Separar as finanças não é apenas uma questão de organização, mas de sobrevivência para o negócio. Para quem está começando, a dica é simples: desde o primeiro mês, abra uma conta bancária só para a empresa e nunca misture os recursos. Para quem já está no mercado, o conselho é revisar os últimos seis meses de extratos e corrigir os erros antes que seja tarde.
A Receita Federal do Tocantins informou que continuará com ações de conscientização, mas também reforça que a responsabilidade é do próprio empresário. "A gente pode orientar, mas a decisão de separar ou não as contas é do dono do negócio", afirmou um representante do órgão.
O Sebrae Tocantins, por sua vez, anunciou que vai intensificar as capacitações sobre gestão financeira nos próximos meses, com foco em bairros onde a incidência do problema é maior. A expectativa é que, com mais informação, os empreendedores consigam evitar os erros que já levaram muitos ao fechamento prematuro.
Enquanto a mudança não acontece de forma massiva, Palmas segue com milhares de empresas operando no limite, correndo o risco de engrossar as estatísticas de fechamento nos próximos anos.